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Começando uma longa conversa sobre « O Departamento Francês de Ultramar » (vai, Paulo Arantes!)

Foto do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (ou o Jardim das Aflições)

Como seria o mundo sem a Cidade Universitária da USP segundo o Estadão? Basta clicar no link à esquerda.

Quanto ao resto, por ora nada tenho a dizer. Vou me restringir nesse início às seguintes postagens em rede social:

Postagem 1

Tomei minha decisão, queridos Joel Pinheiro da Fonseca, Luiz Felipe Panelli, Ricardo Marques Silva, Daniel Nagase, mas fiquem tranquilos que a luta não é sua, nem vou ficar marcando vocês no futuro. Era só uma deliberação alegre (não brinco, estou feliz mesmo) tomada depois de uma boa e gostosa noite de sono bem dormida. E dormi pra valer mesmo. Até ronquei (preciso emagrecer e parar de fumar um maço por dia, hehe). Pena que titio Olavo de Carvalho me bloqueou, não adiantou nem a água santa de Filipe G. Martins.

 

Postagem 2

Se ele escreveu aquele livro sobre « ciclo de conferências sobre Ética na Política », organizado pela secretária da cultura, Marilena Chaui, realizado no MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, durante o governo Luiza Erundina (salvo engano), ele o fez sem ter passado 10 anos na USP, sem ter carteirinha e ainda ser aluno da licenciatura (como essas coisas acontecem, só a administração da FFLCH – USP pode explicar, ou do Departamento de Filosofia da USP ou da Filosofia FFLCH-USP).

Alguém precisa atualizar “instantaneamente”, ao longo dos próximos 18 meses, O Jardim das Aflições. Com um pouquinho mais de conhecimento de vivência por lá e por conhecer o #ModusOperandi interno da coisa, as disputas, as vaidades, as veleidades e também as cretinices; mas meu trabalho será mais arqueológico. Vamos revolver e revocar o campo santo da #FazendaButantan.

À luta, guerreiros! (Refiro-me à vitória exemplar dos Corinthianos ontem sobre o Avanti Palmeiras no estádio do #AranasPark).

A questão da “hipóstase do eu” em Friedrich Nietzsche (ou por que não haveria uma “coisa pensante”)

Friedrich Nietzsche

Exigir da força que não se expresse como força, que não seja um querer-dominar, um querer-vencer, um querer-subjugar, uma sede de inimigos, resistências e triunfos, é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse como força. Um quantum de força equivale a um mesmo quantum de impulso, vontade, atividade — melhor, nada mais é senão este mesmo impulso, este mesmo querer e atuar, e apenas sob a sedução da linguagem (e dos erros fundamentais da razão que nela se petrificaram), a qual entende ou mal-entende que todo atuar é determinado por um atuante, um ‘sujeito’, é que pode parecer diferente. […] Mas não existe um tal substrato; não existe ‘ser’ por trás do fazer, do autor, do devir; ‘o agente’ é uma ficção acrescentada à ação — a ação é tudo. […] Por um instinto de autoconservação, de auto-afirmação, no qual cada mentira costuma purificar-se, essa espécie de homem necessita crer no ‘sujeito’ indiferente e livre para escolher. O sujeito (ou, falando de modo mais popular, a alma) foi até o momento o mais sólido artigo de fé sobre a terra, talvez por haver possibilitado à grande maioria dos mortais, aos fracos e oprimidos de toda espécie, enganar a si mesmos com a sublime falácia de interpretar a fraqueza como liberdade, e o seu ser-assim como mérito.

(Friedrich Nietzsche in Genealogia da Moral, I.13, 1887; tradução por Paulo César de Souza, Companhia das Letras, 1998, pp. 36-37. Grifos em vermelho meus.)

Gostaria de destacar algumas das sentenças que mais me interessam acima:

(a) “apenas sob a sedução da linguagem” se entende ou se entende mal que “todo atuar é determinado por um atuante, um ‘sujeito’”;

(b) “não existe um tal substrato” (ou seja, um “atuante”, um ator); em suma, por inferência, um eu pensante (res cogitans ou ego cogito); nem, portanto, um sujeito agente (donde a ideia de subjetividade ser absurda);

(c) “não existe ‘ser’ por trás do fazer, do autor, do devir; ‘o agente’ é uma ficção acrescentada à ação — a ação é tudo [que há]”;

(d) por inferência, não há um “‘sujeito’ indiferente e livre para escolher”;

(e) por fim, “o sujeito”, ou mesmo “a alma” pode ser considerada “até o momento o mais sólido artigo de fé sobre a terra”, e isto por motivos que não vêm ao caso.

Com isto, implode-se a metafísica moderna de Descartes e Kant que pensam em termos de um “sujeito agente” (subjetividade) ou que, no mínimo, fazem-no ao usar expressões como res cogitans ou ego cogito.

Não é por outro motivo que se tenha tanta dificuldade em estabelecer a passagem da chamada “subjectidade”/subjectité (em termos técnicos, o sujeito atributo de predicados) à “subjetividade”/subjectivité (em termos mais ou menos técnicos, o sujeito agente).

É por isso que Alain de Libera encontra-se em uma bendita encruzilhada filosófica — e também, em sua esteira, Kristell Trego (“Substance, sujet, acte. La première réception latine d’Aristote : Marius Victorinus et Boèce“) e Juvenal Savian Filho (“Sobre uma interpretação recente da tríade ‘ser’, ‘isto que é’ e ‘forma essendi’ em Boécio“).

Subjectidade x subjetividade (Martin Heidegger e Alain de Libera)

Alain de Libera
Alain de Libera, autor da série Arqueologia do Sujeito

La distinction entre subjectité et subjectivité, qui me semble décisive et que j’emprunte à Heidegger. La subjectité désigne le fait d’être le support d’accidents ou d’attributs : cela correspond, en gros, à l’hupokeimenon grec. La subjectivité, elle, suppose la présence d’un ego. Pour que le sujet devienne agent, il faut, comme le dit Heidegger, que subiectum et ego se rencontrent, c’est-à-dire que subjectité et égoïté (Ichheit) se rencontrent : « la « subjectivité » de la métaphysique moderne est un « mode de la subjectité ». Pour Heidegger, le passage de la « subjectité » à la « subjectivité », qui signe l’entrée dans la modernité, se laisse penser à partir de Descartes comme le moment où l’ego, devenu le « sujet insigne », acquiert le statut d’étant « le plus véritable ». C’est ce que je discute dans l’Archéologie du sujet. (inEntretien avec Alain de Libera : autour de l’Archéologie du sujet“, Actu-philosophia, 4 de janeiro de 2009.)