web analytics

É preciso tentar entender de onde vem a burrice do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua (VPR)

Manifestações de Junho de 2013, período em que Dilma Rousseff sancionou a Lei da Delação Premiada (Lei n.º 12.850, de 2 de agpsto de 2013)

Tenho feito e proclamado o quanto posso a diferença óbvia entre « teoria da conspiração » e « prática conspiratória ». O que acontece hoje no Brasil é um espelho sub-óptico para o que vem acontecendo nos Estados Unidos e no resto do mundo. Sim, vou usar o vídeo do Joel para apontar uma falha: ele se recusa a especular quanto ao financiamento intelectual do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua (VPR), essas entidades partisan (e aqui o termo é preciso e técnico, por isso não “partidário”), que não passam de massa de manobra para uma luta mundial da qual o Brasil é um mero satélite.

Até posso brincar de troll no Twitter e no Facebook, mas se for para falar a sério, e apenas com um tom sóbrio, eu também posso fazer isso. De fato, aquele movimento que se mimetiza como uma farsa do Movimento Passe Livre (MPL) nas jornadas de junho de 2013 veio a constituir algo que o vocabulário filosófico nos permite dizer o nome da coisa, do fenômeno, da maneira mais clara possível: o MBL e o VPR não passam de um simulacro muito do ruim do que era o MPL. Simples assim.

Isto a que chamo há um bom tempo de « novíssima direita », embora no passado dissesse respeito apenas ao olavismo militante e festivo, veio a se tornar uma farsa ideológica no sentido mais marxiano e puro do termo. Mas não vou eu aqui agora dar aula de o que significa ideologia em Marx. Isso fica para os próximos meses, e a luta vai ser dura. É preciso, de todo modo, de um projeto pedagógico, que explique da maneira a mais simples possível os erros grosseiros que são cometidos propositadamente associando certos jornalistas de esquerda àquilo que Kellyanne Conway cunhou como « fake news », « alternative facts », e isto num mundo pós-moderno, em que impera a pós-verdadepost-truth world »).

O perigo que se está correndo no Brasil é enorme e começo a apontar para certas organizações que vêm trabalhando para espalhar essa ideologia da chamada « novíssima direita », que é totalmente vinculada a Edward Snowden, Vladimir Putin e Sergey Lavrov. Poxa, mais « teoria da conspiração » ?

Edward Snowden: "a choice between Donald Trump e Goldman Sachs"
Edward Snowden: “a choice between Donald Trump e Goldman Sachs

Não, não é teórica, é prática de conspiração, visto que a campanha de Donald Trump  se beneficiou enormemente de um « comando » vindo da Rússia que apregoava que a opção era entre « Goldman Sachs » ou « Donald Trump ».

O que esse pessoal do MBL e do VPR estão fazendo é simplesmente mimetizar infantilmente algo que veio de fora. Não foi à toa que a Wikileaks vazou o discurso de Hillary Clinton no Goldman Sachs poucos dias ou semanas antes da eleição — escrevo de memória, com o tempo os devidos dados e as informações precisas virão à tona.

De todo modo, é preciso sim combater essa turma que se comporta exatamente como os gestores da campanha de Trump trabalharam. Falavam de « George Soros », da « Fundação Ford », do « Council on Foreign Relations », etc. Há um fundo de verdade nisso tudo? Sim. O problema é que toda mentira e toda ideologia se propaga justamente com algum elemento de verdade. Não há mentira que não se propague memética e mimeticamente sem algum fundo de verdade.

Só que quem patrocina, com ou sem dinheiro, a ideologia desse pessoal e seu discursinho falso, barato e fragilista? Isso aqui é importante começar a investigar. E o que a campanha de Trump mais evitava durante as eleições era justamente o « fact checking », o instrumento mais básico do jornalismo e da reportagem jornalística. Se não há ninguém para checar o que dizem, vão fazer como Trump, que especulava que a taxa de desemprego “real” — ele “ouvira” falar, e assim ele se pronunciou —  beirava a 30, 40, 50%?!

Ora, nenhuma democracia funciona sem uma imprensa forte, cujo papel não é o de ser ela mesma a engendrar movimentos de rua, de manifestações, etc., como a Globo fez com os caras pintadas, e isto depois de ter eleito Collor com edição do debate contra Lula no segundo turno de 1989; isso quando eles fizeram uma novela que espelhava justamente a figura do “caçador de marajás” (ou de “maracujás“, como retrucou jocosamente Lula em um dos debates de 1989).

Eu já disse mais do que queria dizer. Mas digo que não, não é « teoria da conspiração ». As pessoas precisam urgentemente começar a se informar sobre o que foi o evento dos « Red Balloons Challenge » da DARPA (agência ligada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, criadora da internet) em 2009, pouco antes do início daquele troço esquisito que foi a « Primavera Árabe » e precisam também começar a entender o que empresas como « Cambridge Analytica » estão aí para fazer. Com o tempo, vou desenrolar esse nó e juntar tudo num discurso coerente. Mas tudo que a realidade nos oferece neste momento são meros vislumbres de manipulação, que não se sabe muito bem a origem.

Joel Pinheiro da Fonseca está certíssimo em chamar a atenção do MBL (e do VPR, indiretamente, creio), porque o que estão fazendo chama-se simplesmente « canalhice intelectual ». E se há uma hora para não se calar, para não se ausentar, para não fugir da raia, é agora; mesmo que eu tenha que abandonar a fanfarronice e começar a acender vela para quem faz um trabalho de jornalismo sério, mesmo que esse jornalismo venha da esquerda ou de uma direita jacobina e tosca.

Em suma, pensava eu hoje no fim da força-tarefa da Lava Jato e em seus efeitos deletérios para a economia do país, e para o debate público em geral, muito « desinformado » — aqui Joel usou o termo em sua acepção mais correta, porque « mal informado » é quem não tem a informação correta, « desinformado » é quem é vítima de informação proveniente de propaganda revestida de verdade.

E o que eu pensava se dá mais ou menos nesses termos: já findou a hora de passar o Brasil a limpo. Não importa mais saber o que aconteceu no « passado ». Os players políticos estão todos mancos. O que importa é pensar « hoje » e « agora », « já » no Brasil que queremos para o « amanhã ». Pode parecer um clichê, pode parecer que eu virei o que eu acusava os outros de ser, « expectadores » (aqueles que criam expectativas mirabolantes e revolucionárias); mas embora eu diga que as coisas têm de mudar, ainda assim fico aqui no meu papel de mero espectador dos eventos do mundo. Mesmo que eu venha a intervir no debate público. Afinal, esse é meu papel de « intelectual orgânico  do conservadorismo prudencial e cético ». Sim, usei uma linguagem barroca, mas é urgente distinguir a « direita xucra e jacobina e burra » de uma direita que nem direita quer ser; não importa ser de direita, importa ser direito, reto, correto. E contra fatos não há argumentos. Outro clichê, sim. Só que « MBL », « VPR » e quejandos nem argumentos têm! São de uma « pseudo-intelectualidade e militância tão infantóide », tão primária, que nem têm o que dizer seja sobre o que for. Só apelam para manifestações baixas e vis, quando o que o Brasil precisa hoje é de gente séria, trabalhando a sério e pensando o país sob uma perspectiva mais ampla.

Sim, isso inclui ler os clássicos. Martim Vasques da Cunha e Fernando Haddad são dois pólos opostos de um fenômeno que, a despeito de suas falhas e basbaquices, estão aí para produzir algo diferente. Agora, eu sinceramente não acho que vai ser a retroalimentação de um discursinho repetitivo, autorrotulado de conservador, como o de Bruno Garschagen ou de Rodrigo Constantino o que vai nos salvar (muito menos seja o que vier do « clã da família Bolsonaro »).

Falta-lhes noção histórica do que é « a questão brasileira ». Eles (Garschagen e Constantino) a entendem muito mal, embora o primeiro queira brincar de Winston Churchill e o segundo de Ron Paul ou até Paul Ryan.

A reação que Joel Pinheiro da Fonseca mostra nesse vídeo, sem incensá-lo, é exatamente aquilo de que precisamos. Mais gente que saiba pensar e cujos dois neurônios não funcionem na base de « amigos x inimigos », « globalistas x patriotas », « esquerda ou direita ».

Ronald Reagan já alertava para algo parecido em discurso de 1963. Não é o « fenômeno do trumpismo » a resposta a problema nenhum. É uma mudança brutal na cabeça oca desses libertários que nasceram ontem e nem sabem aonde vão, nem de onde vieram, pastiche que são de um próprio movimento que ele mesmo era de esquerda, o MPL, que inerme que fosse, pelo menos era mais honesto que esses simulacros que vieram a formar as hordas da « Novíssima Direita ».

*

Abaixo segue um artigo do Valor Econômico sobre a Cambridge Analytica. Vejam, Joel Pinheiro da Fonseca falha apenas em não enxergar (por ora) de onde vem o ataque que esses caras estão fazendo. Isso envolve questões como « big data », « manipulação mal-intencionada e de má-fé de redes sociais » — nas quais lacram e mitam o tempo todo — e « marketing de guerrilha » que é ele muito nocivo quando usado pelas mãos erradas de quem não sabe aonde quer chegar com o que propaga.

Infelizmente, a matéria original do Valor Econômico (“Após Trump e Brexit, Cambridge Analytica vai operar no Brasil“, 13/03/2017) é fechada para quem não assina o jornal.

Só que, por acaso, o leitor pode a ela ter acesso via os prints abaixo. Lembrando que isso não é « teoria da conspiração », nem sequer responde a tudo. Mas dá indícios do que anda acontecendo nas redes sociais mundo afora, isso sem contar « os recentes ataques via ransomware ».

O mundo virtual é cada vez mais perigoso. E talvez um dia os bravos guerreiros de hoje ficarão sem paciência e energia para seguir em frente combatendo o bom combate. Simples assim.

Ao artigo do Valor Econômico abaixo (para quem interessar possa):

Ler mais

O bando de bandidinhos intelectuais e seu Übereditor de livros: o caso da nova direita brasileira (da série Comédia Política)

Francisco Razzo, Imaginação Totalitária (Fundo)

A ideia de que se é odiado pela “pederastia intelectual” dos outros não só é de um vitimismo enorme mas também implica uma consequência colateral um tanto estranha para quem a enuncia: ei, você se lembra mesmo de o que é um pederasta? Você que se põe como vítima da pederastia intelectual coletiva sabe o que está dizendo? Ora, fera, você se acha mesmo uma vítima simbólica de um estupro intelectual coletivo? Não estará você imaginando coisas?

E aqui é chegado o momento de falar sobre a “imaginação totalitária” da nova direita: para eles, desde que são gente, eles foram e continuam sendo aviltados pela esquerda e pelo Estado. São notórios defensores da consciência individual, da liberdade de iniciativa pessoal e lutam contra o pensamento único coletivo. Só que em dado momento, visto que o capitalismo tem uma tendência perversa ao compadrio, tornaram-se eles mesmos vítimas do que acusavam: a partir do momento em que o “Übereditor”, Carlos Andreazza, resolveu que era preciso aproveitar o momento histórico e capitalizar e divulgar as ideias da nova direita, ilustrando a arraia-miúda que lhe compra os livros, então se formou um novo grupo de editados e autores que publicam títulos como a Imaginação Totalitária (Francisco Razzo) ou Pare de Acreditar no Governo (Bruno Garschagen).

Alguém poderia a mim perguntar se os li ou se os lerei. Não e não. Aprendi desde cedo que há prioridades bibliográficas e, sinceramente, nunca as satisfiz. Prefiro passar alguns meses lendo e relendo As Confissões de Agostinho traduzidas por Lorenzo Mammi do que chegar perto desses best-sellers preparados para agradar a “consciência coletiva do grupo” dos que defendem, só em aparência, a “consciência individual do indivíduo [sic]”. Porque é uma clique de adultescentes, que vive a queimar incenso um para o outro, às vezes com expressões como “gênio da raça”, “übereditor” (infelizmente em minúscula nesse caso particular, daquele que o propaga, embora o correto fosse “Über”, como em “Übermensch”, mas tudo bem, segue o jogo), entre outras diversas maneiras de elogio entre pares, num grande encômio público nas redes sociais.

De todo modo, tomando o primeiro caso, o de Francisco Razzo, há dois argumentos básicos  em sua auto-promoção e auto-divulgação militante contra o aborto. Antes, porém, um caveat, caro possível leitor: eu sou pessoalmente contra o aborto, quase que em qualquer situação. Entre a vida da mãe e a vida da criança que poderia vir a ser eu ficaria pessoalmente aterrorizado. Mesmo nesses casos em que há um impasse decisório, eu ainda tenderia a defender a tal vida “prenatal” (antes de nascer) — ou se quiserem dizer nascituro, digam.

Só que na prática a teoria é outra. Na verdade, o inverso aqui também é verdadeiro: na teoria a prática é outra. Mencionei há pouco, sem ainda explicitar, os dois argumentos dos que costumam defender o dito “direito à vida”. Esses dois argumentos se baseiam em dois pressupostos: (i) já o zigoto, como também o embrião, como também o feto já são (ou são em potência) “um bebê”, ou seja, são pessoas com direitos humanos que devem ser assegurados em lei; (ii) se o Estado permitir que a mãe “termine” a gravidez de maneira deliberada, o que está sendo permitido é que se assassine uma pessoa em potencial, o feto, que é o bebê em alguns meses. Há ainda os que usam um terceiro argumento, que geralmente é o primeiro na verdade, que de tão primário não valeria nem ser mencionado. E por que é primário? Porque se você precisa de um argumento para falar a respeito de um fato público e notório, você não sabe o que é um argumento. É óbvio que o feto é humano. A humanidade do feto é uma obviedade. O que isso tem a ver com o debate? A não ser que eu não tenha percebido que poderia haver aqui uma defesa dos “direitos humanos” do bebê que está por nascer em x meses ou dias. Agora, se for isso o que está pressuposto, os que defendem a vida realmente deveriam dar um passo atrás e defender a dignidade de toda célula humana que não seja um zigoto. Deveriam também fazer campanhas públicas pré-zigóticas em defesa dos direitos humanos dos milhões de espermatozóides que são lançados à terra (ou no látex) todos os minutos e segundos do dia ao redor do mundo. À campanha, amigos!

O problema é que ideias têm consequências. Se eu estiver fazendo um espantalho do argumento em prol da vida em (i) e (ii) basta me dizer, eu faço uma correção pública de meu erro. Mas até onde consta, todo defensor da vida, self-righteous, defende que o zigoto é um bebê humano em potencial (algo óbvio e com que concordo) e que, portanto, é já uma pessoa com plenos direitos humanos, ou, no mínimo, com o direito a nascer. Esse ponto (i) é um espantalho como o formulo? Não, não é. Se for, não adianta me bloquear nas redes sociais e continuar falando sozinho ou com os coleguinhas e amiguinhos; ou mesmo com a plateia e sua claque. Ah, como é bom ser aplaudido e vender minhas ideias sem contestação para os compadres em prol de uma causa justa, os bebezinhos ainda não nascidos! Como é bela a vida! Ao que digo que, ó Deus, um feto em estado embrionário não parece nada “humano”, embora o seja, e demasiado humano. Só que, infelizmente, muita coisa também é humana. Todas nossas células são humanas, inclusive aquelas cancerosas — e não, seu precipitado, não é uma comparação, nem uma equiparação axiológica. É óbvio que um feto humano, o nosso futuro bebê que se quer que nasça, tem uma diferença do ponto de vista do valor e do afeto que a ele lhe damos. Isso não está em disputa. Eu já disse que sou contra o aborto até em casos extremos. Mas é preciso analisar as ideias e suas consequências até o limite. E no caso, uma redução ao absurdo das teses defendidas pela direita religiosa militante, em favor da vida, faz com que se veja que do ponto de vista de políticas públicas, do ponto de vista das leis e das regras sociais, o aborto não pode ser proibido e sua proibição é uma violação essencial ao direito das mulheres de escolherem o que querem fazer com suas vidas e com seus corpos, assim como os homens têm os mesmos direitos, mas não do ponto de vista reprodutivo, no que toca especificamente ao carregar no ventre um bebê ainda não nascido. Sim, homens têm direitos. Mas ao contrário do que se vê em cena de Life of Brian, quando os militantes especulavam sobre quais direitos que queriam arrogar, um dos personagens, um rapaz, diz que queria ter o direito a carregar em seu útero um bebê. Mas lhe replicam: você não tem útero. Ora, treplica ele, mas eu quero ter direito a ter um útero!

Com essa anedota eu só quero frisar algo que é constantemente esquecido nesse debate todo: as feministas têm razão quando se arrogam direitos especiais, que não dizem respeito ao homem. Não, não vou eu aqui a defender todo o discurso e narrativa feministas, assumindo seus conceitos e expressões como sempre corretas. Se é para se falar a sério, é preciso discutir ponto a ponto, e em seu devido momento; a nova direita poderia querer dizer que defendo um discurso anti-falocêntrico. Bem, eu não acredito em falocentrismo, porque falos não são nem deveriam ser o centro de políticas sociais ou de uma ética pessoal. É estranho quando é preciso se defender o bom senso, mas vamos lá. Têm razão, porém, aquel@s que falam em patriarcalismo. O mundo social e as diversas sociedades — exceptuando-se pelo menos uma ou duas matriarcais — giram sim em torno da figura do tal do pater familias. Mas esse assunto não vem ao caso neste texto, a não ser para se esclarecer o máximo possível que, sim, mulheres têm direitos reprodutivos que são só delas e que nada dizem respeito ao homem, porque elas carregam em si todo um sistema reprodutivo, constituído de ovário, óvulos, útero. E, não, não quero especular por que mamíferos têm ovário e óvulos. Mas quero explicitar algo que é constituinte essencial e uma diferença específica da mulher que não, não é igual ao homem: não só faz parte de seu ser próprio ser dotada de um útero e de óvulos que seu próprio organismo individual e pessoal produz, sem os quais o espermatozóide não engendra um zigoto, mas a mulher também carrega em si algo que é próprio aos mamíferos femininos: mamas para o deleite, digo, para potencialmente amamentar. E, sim, esse texto se parece cada vez com uma primeira aula de Sex Education 101 ou mesmo de biologia, mas pouco importa. Se não explicitamos alguns detalhes óbvios, a direita vem com todo seu atualíssimo arsenal aristotélico — que, aliás, eu mesmo defendo e uso — e se utiliza do peripatético para seus fins propagandísticos e ideológicos que são eles mesmos de uma perversão (e não pederastia, Martim, sua vítima!) intelectual enorme.

Voltando ao ponto que acabo de elencar aqui. A potencialidade da amamentação é própria ao animal mamífero. E é própria apenas ao sexo feminino — não, aqui não se trata de uma questão identitária de gênero, mas de sexo, porque se fala de reprodução e mesmo de criação no sentido de suster um bebê que veio ao mundo. Tudo isso diz respeito tão-somente à mulher, em nosso mundo antropológico e sociológico patriarcal. E tudo isso é essencial ao ser da própria mulher, a potencialidade para a reprodução e seu aspecto passivo, no sentido de que é paciente ou recipiente do espermatozóide, dizem respeito somente à mulher. A partir do momento em que o homem dê sua contribuição, não há mais retorno. E ele só pode ser um mero auxiliar e paciente do espetáculo da vida que se dá no próprio corpo feminino. Só que se a mulher — e não vou discutir aqui motivos neste texto, apenas direitos — não quer continuar com a gravidez porque o corpo dela e o embrião e o feto e o bebê não nascido fazem parte do seu próprio ser biológico, é um seu direito natural fazer o que bem decidir, pois é dela, é uma sua dádiva.

Não se pode imputar criminalmente de maneira alguma a pecha de homicida em potencial à maior parte da humanidade. Mulheres não são assassinas em potencial. Se o aborto fosse o assassinato de uma pessoa, a consequência disso seria que elas deveriam ser presas, mesmo no caso de um aborto espontâneo. E se não foi o corpo da mulher que abortou o feto, se foi o próprio feto que, por qualquer motivo que seja, não deu prosseguimento ao seu próprio desenvolvimento e acabou morrendo, a consequência da ideia de que ele tem direitos de uma pessoa nascida é que ele cometeu suicídio e de que deveria ser legalmente processado num país em que o suicídio seja crime. Essas são as consequências de se atribuir um estatuto que fetos não têm: o de pessoa dotada de direitos, seja em potência ou não. Ou que os moralistas religiosos, mormente cristãos, que atacam as feministas (elas também frequentemente moralistas), que tomem responsabilidade pelas posições que defendem e que instaurem tribunais para punir a segunda metade da humanidade, que é potencialmente assassina.

Como é fácil zoar os outros pelas costas, tendo exercido o direito fundamental de bloquear (via aba privativa do browser)
Como é fácil zombar dos outros pelas costas, tendo exercido o direito fundamental de bloquear (Twitter via aba privativa do browser)

Quando eu disse tudo isso de maneira muito mais resumida no Twitter, Francisco Razzo não aguentou e me bloqueou. Fique claro: é um direito fundamental de qualquer um bloquear o pestinha ou o troll que se quiser.

Só que você não pode eticamente bloquear alguém, apagar alguns de seus comentários, e junto com Gabriel Ferreira da Silva — esse poser da “Ontologia”, “olha eu aqui lendo meu livrinho em sua realização ôntica em minhas mãos”, “olha como eu sou esperto, gentchim” — ficar dizendo que você já consertou a pingadeira do telhado, já lavou a louça e já salvou dez fetos não nascidos só nos últimos cinco minutos e o outro que está lá bloqueado e que não pode ver o que você está dizendo sobre ele tem sua reputação destruída. Ops! Reputação? Que reputação?

Aqui uma palavrinha sobre minha reputação: ela é uma das mais “libadas” e sujas da internet brasileira. Eu sei como sou percebido e sei que isso tem a ver com a maneira como ajo. Não é uma questão de paranoia. Se eu ajo como ajo, sei quais serão as consequências. Aponte o dedo para o que dizem, o que fazem ou como reagem as pessoas e será anátema. Fora daqui. Não falo mais com você. Só que cheguei à conclusão, graças a ajuda de Martim Vasques da Cunha, que me auxiliou nesse processo (via mensagem privada no Facebook direcionada a umas 12 pessoas) e aprendi finalmente uma coisinha ou outra com Nassim Nicholas Taleb. E uma delas é que quanto mais mal falarem de você, melhor. Quer dizer, desde que você defenda, no fim das contas, ideias que mereçam ser defendidas, não importa como o verão ou qual será a percepção pública sobre você.

Martim Vasques da Cunha se colocando como vítima do ódio alheio em sua luta contra a 'pederastia intelectual'
Martim Vasques da Cunha se colocando como vítima do ódio alheio em sua luta contra a “pederastia intelectual”

Em suma, não importa o quanto a “nova direita” me bloqueie e que quando me dê algum “IBOPE” o faça com minha caveira pública. Não adianta Francisco Razzo ou Bruno Garschagen me bloquearem. Não adianta Martim Vasques da Cunha, meu amigão sem ser meu amigo, incensar Carlos Andreazza chamando-o de “übereditor” (em minúscula, ai meu alemão) e escrever sem parar “pelo o” e “pela a” — um sinal de um certo analfabetismo “preposicional e articular” renitente —, não adianta ficarem falando que sou Napoleão, invejoso, ressentido, homem do subsolo de Dostoiévski. Eu não tenho o que invejar (invedere); eu os vejo muito bem, obrigado. E eu admiro o esforço que vocês fazem. E eu admiro a quase antifragilidade antivitimista de Martim Vasques da Cunha. Só que eu tenho de dizer que ele e a turma de O Indivíduo (lá no final dos anos 90 e início dos anos 2000) eram, foram e agiram frequentemente como um bando de vítimas da malvada esquerda brasileira, do PT, da PUC (ah, seus filhos!), dos letrados e dos bandidos, e por aí vai. Só que esse bando da direita veio a constituir hoje um bando de bandidinhos intelectuais que ficam acusando o ódio de quem não os odeia e a pederastia intelectual de quem não os está violando, a não ser em sua “imaginação totalitária”, advinda de pensamento único e de comportamento de rebanho. São o homem-massa da direita, para o aggiornamento do pobre José Ortega y Gasset.

Abraham Lincoln, John F. Kennedy (JFK), Martin Luther King & Bobby Kennedy

Alexandrina, xilogravura a pedido de Louis Agassiz

Meu último post para a SOUL ART (“Black Lives Matter: What the World Needs Now Is Love”) associa o movimento pelos direitos civis dos afrodescendentes, frente à brutalidade policial mundo afora — nos Estados Unidos, no Brasil, onde quer que seja. O objetivo é fazer uma associação entre o pessoal do Black Lives Matter (Vidas Afrodescendentes Importam!) e a canção composta por Burt Bacharach, What the World Needs Now Is Love, não sendo o amor nem sequer um sentimento, mas, como tento argumentar no texto, uma espécie de baliza para o comportamento no mundão véio. A “regra de ouro”, base da filosofia prática de Immanuel Kant, consiste, numa formulação positiva, em tratar os outros como se gostaria de ser tratado. Espero fazer ressoar aqui a ideia motriz de que a verdadeira amizade consiste em tratar o próximo como amigoa quem podemos criticar sem ferir seus sentimentos, sem que ele fique melindrado por isso. Trata-se do famoso princípio do uso público da razão, que às vezes pode ser um tanto doído, tanto para mim, quanto para você, meu amigo. É um discurso piegas, mas ser blasé num mundão violento e cruel e dizer que o amor não é a resposta para nada é se perder. Retomando a palavra “amizade”, notem que amicitia, no latim, é substantivo parente tanto de amīcus (“amigo”), como este do verbo amō (“eu amo”), amare (infinitivo latino, “amar”).

Então se você pensa que eu o vejo como inimigo, você está redondamente enganado, amigão!

Ao texto na SOUL ART (“Black Lives Matter: What the World Needs Now Is Love”):

Abraham Lincoln, porém, será apenas um dos constituintes de um quarteto, que numa canção de uma figura estranha como a do cantor Dion (logo acima, aperte o play!), sintetizou a luta pela igualdade entre os homens. A segunda figura a aparecer será a de John F. Kennedy (JFK), a terceira a de Martin Luther King e a quarta a de Bobby Kennedy. Por quê? Ora, porque eles, mesmo que, se se quiser, corruptos, foram homens que lutaram por toda sua vida pela dignidade humana e, em alguma medida, foram assassinados por isso. O caso de Lincoln é sintomático: foi alvejado por um simpatizante dos confederados insatisfeito com o resultado da vitória da União contra a “independência” ou secessão dos estados confederados do sul (escravistas e economicamente atrasados).

A propósito do caos gerado por Lauro Jardim em blog de O Globo a partir das 19h30 de 17/05/2017

Lauro Jardim, blogueiro de O Globo

Virou moda no Brasil tomar o conteúdo de delações premiadas como fático e insofismável. Mas, é preciso cogitar, mesmo com o risco de perder o benefício do acordo de leniência, esses públicos malfeitores não poderiam montar mentiras coordenadas, com o fim de aliviar suas penas?

Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aludiu para o fato da formatação, a partir de Curitiba, uniformizante de crimes sempre categorizados como “propina”. Ora, se procuradores do Ministério Público, delegados da Polícia Federal, juízes da Justiça Federal, trabalham uniformizando delações, às vezes em coordenação com advogados de defesa, justamente aqueles que defendem a lei e a ordem, tendo como fim o combate ao crime e à corrupção, podem estar eles mesmos cometendo crimes, agindo ilicitamente em nome da licitude.

Evidências disso há aos montes, a começar por

(1) o juiz Sérgio Moro vazou ilegalmente áudios, depois de formalmente findo o “grampo”,

(2) Mônica Moura e João Santana se contradisseram sobre como ambos teriam ou não ficado a saber previamente que seriam presos,

(3) Joesley e Wesley Batista tiveram aula de delação premiada na Polícia Federal 15 dias antes de gravar conversas com Michel Temer e Aécio Neves.

Vê-se, assim, coordenação entre policiais e bandidos (terceiro exemplo acima), ainda mais em se tratando de “armação controlada” de pagamentos que durariam 15, 20 ou até 30 anos. Ora, não está claro que a Procuradoria-Geral da República (PGR), na figura de Rodrigo Janot, e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF), na figura do ministro “despachante” Edson Fachin, agiram em coordenação com os irmãos Batista (e seus advogados) para a realização de delação premiada que ceifaria a cabeça do atual presidente da República, Michel Temer, e do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial de 2014, Aécio Neves? Não agiram em coordenação também com um jornalista útil, Lauro Jardim, conspirando contra um presidente que fechara os cofres do BNDES e que lutava pela reforma da Previdência, a qual equipararia, num certo período de transição, a aposentadoria de todos os cidadãos brasileiros, que não poderiam receber mais que ~5 mil reais por mês? A pergunta é, sim, longa, mas os fatos não são nem um pouco simples.

E se essa narrativa se assemelha a de Reinaldo Azevedo, público emissário privado de Gilmar Mendes, digo que, simbolicamente, mate-se o mensageiro. Ficou escancarada a coordenação privada de Reinaldo Azevedo, que perguntava a Andrea Neves se ela queria que ele publicasse algo do interesse dela como reportagem:

Reinaldo Azevedo combinando narrativa com Andrea Neves
Reinaldo Azevedo combinando narrativa com Andrea Neves

Se o jornalista e homem de letras, Reinaldo Azevedo, tem o direito ao sigilo de fonte, também o tinha Ricardo Boechat, seu atual colega de emissora (Band News FM). Mas também Boechat foi vítima de grampo (estampado em reportagem da revista Veja), em que o apresentador do Jornal da Band combinava reportagem não assinada em O Globo, com informação que, segundo a Veja, beneficiaria o grupo Opportunity:

Ricardo Boechat combina reportagem favorecendo o grupo Opportunity
Segundo a revista Veja e o jornalista Reinaldo Azevedo, o também jornalista Ricardo Boechat teria combinado reportagem que favoreceria o grupo Opportunity

Quanto a Gilmar Mendes, vários de seus argumentos e mesmo imagens de retórica foram tornados públicos por Reinaldo Azevedo antes do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, e também durante o mesmo julgamento.

Um exemplo: o acusar a própria mãe. Gilmar Mendes usou tal figura nos estertores de seu voto na sexta-feira passada (9 de junho de 2017); Reinaldo Azevedo usou a mesma figura em seu programa de rádio na Band News FM, “O É da Coisa”, pouco antes de iniciado o tal do julgamento, que invadiu, inclusive, o final daquela edição da terça-feira passada (6 de junho de 2017); fê-lo, porém, no início do programa, recitando canção de Vicente Celestino.

Outro exemplo de tópos repetido à exaustão por Reinaldo & Gilmar: pudessem as provas da Odebrecht ser usadas — ipsis verbis — também as delações da JBS poderiam ser usadas, como também a delação de Palocci, que viria a se concretizar na semana seguinte (esta, de Corpus Christi, em que tal ainda não se deu), ou também até “provas” de crimes in fieri, ainda em concreção, também deveriam ser aceitas e acrescidas à denúncia original.

Fica claro que Gilmar & Reinaldo patinaram: o cioso e cripto-petista, Herman Benjamin, usou apenas o que estava na petição inicial do PSDB escrita por José Eduardo Alckmin, primo do governador de São Paulo e, segundo o próprio Gilmar Mendes, colega seu de faculdade.

Herman Benjamin, Gilmar Mendes e seu emissário Reinaldo Azevedo

Herman Benjamin, ministro do Superior Tribunal de Justiça e Corregedor-Geral da Justiça Eleitoral

Seria prudente Reinaldo Azevedo rever sua posição quanto à “pauta Odebrecht” no tocante à cassação da chapa presidencial de 2014, Dilma-Temer (PT-PMDB), visto que o articulista da RedeTV e da Folha, costuma proceder de maneira justa e legalista.

Herman Benjamin tem razão, a “pauta” já constava do próprio pedido de cassação pela campanha de Aécio Neves, pela chapa do PSDB. Hoje Gilmar Mendes foi constrangido por Herman Benjamin pelo que o próprio Gilmar Mender dissera e firmara no passado.

É de se esperar que o legalismo ostentado por Reinaldo Azevedo se estenda à legalidade com que procedeu Herman Benjamin hoje e, assim, reveja seus postulados de texto publicado no início da manhã de hoje (“Ação no TSE não é bolha assassina: por que descartar depoimentos da Odebrecht”).

Herman Benjamin rebate acusação de que processo se baseou em ‘vazamentos’” (O Estado de S.Paulo, 7 de junho de 2017)

O ministro Herman Benjamin, relator das ações que pedem a cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fez uma longa argumentação para negar a segunda preliminar apresentada pelas defesas. Ele rebateu a acusação de que o processo se baseou em “vazamentos” de delações premiadas e argumentou que não utilizou provas produzidas pela Operação Lava Jato, mas sim convocou os executivos da Odebrecht para deporem à Justiça Eleitoral como testemunhas, produzindo assim o próprio material probatório.