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Elogio à elegia nos 10 anos desde que Bruno Tolentino se foi

O nome de batismo do fulano aí em cima que canta “The Ballad of the Dying Man” é Joshua Michael Tillman, seu nome artístico é Father John Misty

Hoje, tanto Pedro Sette Câmara (“… virtuosismo sem força são os trinta modelos de cartas de apreço ao sr. diretor”), como Martim Vasques da Cunha (“… nas águas obscuras do desterro…”) remetem aos 10 anos da morte de Bruno Tolentino. E não há nada que eu queira dizer sobre a pessoa de nenhum deles, nem da do que partiu, nem da dos que falam sobre alguém por quem nutrem um carinho e uma admiração que julgo pessoalmente com um certo sentimento que não sei nomear. Ou talvez eu não tenha coragem de dizer que vejo consternado e empatizo com sua saudade e saudosismo.

A única razão que eu tenho para rasurar esta nota pessoal, remetendo ao que os dois acima escreveram, é que eu um dia fui apresentado a Bruno Tolentino, nos confins do CEUS (Centro de Extensão Universitária do Sumaré). Não tenho uma palavra sequer para dizer a respeito daquele ano em que entrei na filosofia da USP, 2006, e em que finalmente conheci pessoalmente Julio César Lemos (depois de lê-lo desde o Comentário Ultramontano, antes de ele começar a escrever junto aos Wunderblogs) e, por meio dele, uma das figuras que mais tocam meu imaginário agonístico: Joel Pinheiro da Fonseca. Sentamos a uma padaria, com JCL, que dizia ser JPF filho de um tal economista, enquanto este ia pegar o almoço e estávamos sentados os três à mesa (eu, DAN e JCL). Pensei comigo, “grande bosta!”. Nunca me interessou a filiação de um homem, ou sua linha genética ascensional, apenas suas ideias. E foi com ele discutindo (JPF), ao lado de Daniel Arvage Nagase — que conheci na USP, intrometendo-me em uma conversa sua com colegas calouros —, que tornei seu amigo. Bem, o que se discutiu naquela padaria do Sumaré não me lembro ao certo, e Tolentino deveria ser o assunto aqui. Mas, antes, só uma pequena observação: naquele mesmo dia Joel falou-me de seu Terra à Vista (Tavista), blog que escrevia com alguns amigos; e talvez eu tenha falado do Protosophos, sobre o qual em algum momento serei obrigado a escrever, para que o passado não seja esquecido.

“… como há dez anos atrás…”

De todo modo, voltando a Bruno Tolentino, minha única memória pessoal com ele consiste em a ele ter sido apresentado justamente por JCL. Àquela época, visto que meu irmão de sangue (mesmo pai e mãe e tal), o único, Gabriel Alexandre, tem cabelo “pixaim” (perdoem o termo, vestais!), e visto que sinceramente não me vejo como exatamente branco, visto que toda minha ascensão envolve negros, meu tataravô paterno sendo negro, minha tataravó materna sendo negra, eu disse então a Bruno Tolentino, que me perguntava quem eu era ou de onde vinha: “sou negão”. Ao que ele retrucou: “só se for [do norte da Inglaterra?]” (não me lembro da referência geográfica ao certo). Não sei exatamente por que conto isso; talvez seja porque eu me lembre de sua morte (velório na mesma igreja e no mesmo lapso temporal que Octávio Frias de Oliveira?) e de ter sido apresentado a ele por meio de JCL. Talvez seja por contrição pela maneira com que agi com alguns. Talvez tenha a ver com os “ataques pessoais” que fiz a um morto (atire a primeira pedra, caro leitor). Lembro-me também que num desses dias na mesma padaria perto do CEUS e do prédio da falecida MTV, MVC dissera ter vindo no ônibus conversando com Tolentino sobre como Marilena Chaui bem que podia morrer. Haveria, portanto, mortes abençoadas. A morte poderia ser uma bênção.

Pois, como se diz num livro aí, haverá um tempo em que os vivos não conseguirão nem sequer tirar a própria vida, logo a morte é uma dádiva divina.

Enfim, lembranças. Pois é, eu as tenho. Mesmo de alguém que conheci tão mal, e que, diga-se a verdade, nunca li nada seu. Ofende-me a ideia de ler Bruno Tolentino. Porque eu sei que não estou pronto. Talvez nunca esteja.

Por isso, o único objetivo deste encômio é remeter à elegia de dois monstros sagrados (MVC e PSC), que leio desde pirralho, o que quer dizer desde sempre.

*

Relembro também algo que o Julio dissera a respeito de Bruno. Como ele xingava a todos que com ele estavam no hospital, cuidando dele, por circunstâncias que não se revoca. Esse era um seu comportamento peculiar que com frequência a ele atribuíam. Brigava com todos. Pergunto-me, sincera e curiosamente, por quê. De onde vem esse espírito de Thánatos? Espero ciosamente que bem-aventurado seja e que o último inimigo a aniquilar seja a morte.

*

Se se menciona nomes de pessoas, quando se diz isso ou aquilo sobre o que aconteceu no passado, só se o faz enquanto memorabilia. Ninguém está sob ataque. Se se disser que se os acusa, só se o faz em sentido não jurídico de kategorein: não é denúncia perante tribunal, mas apenas epexegese. Esquecer é letal, por isso o dever do encômio apenas à alétheia.