web analytics

“Quando se é”, “quem o é”, enunciados hipotéticos x categóricos, aspectos modais e outras firulas mais

Valeriana Officinalis Flower

Queridos, é o seguinte. Eu levo tudo, tudo na brincadeira. Mas se você questionar a minha gramática — fora o fato de eu escrever mal porque fico enchendo meu texto de comentários parentéticos — aí você me ofendeu.

Se alguém vier dizer que um enunciado do tipo “se x, [então] y” não é condicional, porque seria um pronome reflexivo (“se fez” é ambíguo, p.ex., porque o pronome reflexivo pode estar ali, mas pode estar omitido), aí sim você vai ter uma briga de morte comigo. Fora isso, pode xingar até a minha progenitora e eu estarei mijando e andando para você.

De novo, e vamos aqui tomar o trecho textual em sua “clareza mais clarividente”:

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a […]. »

Bom, o caso é um tanto complexo e ambíguo mesmo, não vou negar. Mas com um pouquinho de chá de valeriana ou camomila e boa vontade vê-se que é um enunciado condicional, no subjuntivo (em minha leitura pessoal).

Vejamos:

« quando você mesmo se recusa a… ».

Okay, pensando bem, aqui a única leitura é de pronome reflexivo. Mas avancemos um pouco mais. [caveat: mudei de ideia.]

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo […] »

Talvez o contexto seja crucial aqui, não sei; posso ter escrito mal mesmo. Isso não é raro, é o mais comum. Sou meio acelerado. Mas sigamos.

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual. »

Um “se se recusa” aí é agramatical, porque já se tem o pronome de tratamento “você”.

[Uma formulação sem “você” poderia permitir uma assertiva hipotética do tipo: “quando se se recusa a”. Esse é o problema. E cá estou eu editando o texto depois de tê-lo escrito e mudando de ideia de novo.]

Então o que diabos pode dar um sentido condicional ao trecho em questão? Por que o “se” ali na minha cabeça não é reflexivo?

Reformulemos: « […] quando você mesmo se recusa […] ».

Okay, quedo vencido. Errei. [caveat: só que não; mudei de leitura pouco depois.] Não há leitura possível do trecho como podendo ser um enunciado do tipo “se x, então y”.

Sempre que se usa um “quando”, seu aspecto é [quase?] sempre indicativo. Daí a diferença entre “quando eu faço isso” e “se eu faço isso”.

A única defesa que posso ter aqui é dizer que eu estava falando genericamente. Hábito que eu tanto reprovo nos outros. Agora, se eu estava falando genericamente, como esse conjunto de enunciados pode ser ele asseverativo e não hipotético? E se é hipotético, então é condicional.

Lendo sem se colocar no quadro que eu indico ali, é possível fazer uma leitura do tipo “se se faz isso, logo se é”. Mas se eu disse o nome da pessoa, e digo “quando se faz isso”, trata-se sim de um pronome reflexivo [caveat: só que não, sigamos].

O problema, e esse é o busílis (ui), é que para mim, sincera e honestamente, o conjunto de sentenças era « hipotético » e não « categórico ». Algo como, “quem trai o amigo”, ou “quando se trai o amigo”. Esse tipo de frase não diz respeito a fatos no mundo, mas a modalidades potenciais ou possíveis. E se diz respeito a um modo “possível”, logo, mesmo estando formulado no indicativo e não no subjuntivo (ou poderia estar? talvez se eu tivesse usado “seria” [futuro do pretérito do indicativo] ou “fosse” [pretérito imperfeito do subjuntivo]), o conjunto de enunciados diz respeito ao que “poderia ser” (modal possível) e não um “é” (factual e indicativo de um estado de coisas). Principalmente quando não sei se a pessoa pensa aquilo mesmo.

Enfim, errei quando disse que aquilo ali era um “se” condicional [caveat: logo abaixo explico por que vim a entender que não, não errei]; não me parece ser possível defender gramaticalmente essa leitura. Mas, quero crer, e sendo muito sincero, que o conjunto de enunciados ali em cima não é assertivo, nem categórico, mas hipotético. “Quando alguém faz isso” mesmo que conjugado no indicativo, parece-me e soa-me subjuntivo (do mundo do “poderia ser” e não do “é”). Do mundo das possibilidades e não do mundo tal como ele é.

*

Dito isto, mudei de ideia. Eu entendi qual é o pronome da frase no meio da revisão deste texto. O problema é justamente o pronome de tratamento “você”, que atrapalha a leitura.

Vou tentar de novo. Formulação original:

(1) « É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual. »

Okay. Agora eu vou reformular esse mesmo conjunto de enunciados sem o pronome de tratamento “você” e testar para ver o que acontece.

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual.

Okay. Aparentemente, eu tinha razão. O papel de “você mesmo” ali é de um pronome reflexivo formulado com o pronome de tratamento “você” mais o próprio reflexivo “mesmo”. Dizer “você mesmo” é uma maneira coloquial de se usar o pronome reflexivo “se”. Então de fato, embora o “se se” fosse agramatical numa sentença com “você mesmo…”, quando eu digo “você mesmo” essa expressão já funciona ela mesma como o pronome reflexivo “se”. Simples assim. Deste modo, sem perda ou mudança de sentido do original, eu poderia ter escrito de outra maneira, que aqui chamo de “formulação com alteração, mas sem adulteração”:

(2) « É fácil falar isso quando se se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual.

Curiosamente, tudo o que fiz foi tirar o “você mesmo” e trocar pelo pronome reflexivo “se”. Portanto, eu estava certo, depois estava errado, e agora estou certo de novo. Pensar dói. Mas pelo menos aprendi (sério, isso aqui é #nascoxa) que “você mesmo” exerce o mesmo papel gramatical que o pronome reflexivo “se” e naquela formulação original mesmo, quando digo “quando você mesmo se recusa”, “você mesmo” funciona como “se” reflexivo e aquele “se” ali é sim gramatical e sintaticamente um “se” hipotético ou condicional. E eu diria que isso faz com que tudo que foi escrito ali está, mesmo que não formalmente, sei lá, pelo menos informalmente no subjuntivo, no mundo do “pode ser que quando” e não no mundo “quando é assim”. Embora mesmo nesse último caso, o “quando” também tenha ali um aspecto subjuntivo e hipotético. Porque “quando é assim”, embora “é” esteja no indicativo, não diz respeito ao mundo como ele é (ou como indico que ele seja no indicativo), e sim como quando o mundo pode ser assim, apesar de formalmente o “é” estar no indicativo.

Ou seja, a própria língua portuguesa clama pelo noção de aspecto, porque as formas sintáticas de conjugação dos verbos são insuficientes para dar o sentido conotativo, e não denotativo de algumas formulações que nunca foram ofensivas na cabeça daquele que as formulou.

[E não, não tenho certeza se denotação ou conotação tem a ver com esse imbróglio chato do baralho.]