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A questão da “hipóstase do eu” em Friedrich Nietzsche (ou por que não haveria uma “coisa pensante”)

Friedrich Nietzsche

Exigir da força que não se expresse como força, que não seja um querer-dominar, um querer-vencer, um querer-subjugar, uma sede de inimigos, resistências e triunfos, é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse como força. Um quantum de força equivale a um mesmo quantum de impulso, vontade, atividade — melhor, nada mais é senão este mesmo impulso, este mesmo querer e atuar, e apenas sob a sedução da linguagem (e dos erros fundamentais da razão que nela se petrificaram), a qual entende ou mal-entende que todo atuar é determinado por um atuante, um ‘sujeito’, é que pode parecer diferente. […] Mas não existe um tal substrato; não existe ‘ser’ por trás do fazer, do autor, do devir; ‘o agente’ é uma ficção acrescentada à ação — a ação é tudo. […] Por um instinto de autoconservação, de auto-afirmação, no qual cada mentira costuma purificar-se, essa espécie de homem necessita crer no ‘sujeito’ indiferente e livre para escolher. O sujeito (ou, falando de modo mais popular, a alma) foi até o momento o mais sólido artigo de fé sobre a terra, talvez por haver possibilitado à grande maioria dos mortais, aos fracos e oprimidos de toda espécie, enganar a si mesmos com a sublime falácia de interpretar a fraqueza como liberdade, e o seu ser-assim como mérito.

(Friedrich Nietzsche in Genealogia da Moral, I.13, 1887; tradução por Paulo César de Souza, Companhia das Letras, 1998, pp. 36-37. Grifos em vermelho meus.)

Gostaria de destacar algumas das sentenças que mais me interessam acima:

(a) “apenas sob a sedução da linguagem” se entende ou se entende mal que “todo atuar é determinado por um atuante, um ‘sujeito’”;

(b) “não existe um tal substrato” (ou seja, um “atuante”, um ator); em suma, por inferência, um eu pensante (res cogitans ou ego cogito); nem, portanto, um sujeito agente (donde a ideia de subjetividade ser absurda);

(c) “não existe ‘ser’ por trás do fazer, do autor, do devir; ‘o agente’ é uma ficção acrescentada à ação — a ação é tudo [que há]”;

(d) por inferência, não há um “‘sujeito’ indiferente e livre para escolher”;

(e) por fim, “o sujeito”, ou mesmo “a alma” pode ser considerada “até o momento o mais sólido artigo de fé sobre a terra”, e isto por motivos que não vêm ao caso.

Com isto, implode-se a metafísica moderna de Descartes e Kant que pensam em termos de um “sujeito agente” (subjetividade) ou que, no mínimo, fazem-no ao usar expressões como res cogitans ou ego cogito.

Não é por outro motivo que se tenha tanta dificuldade em estabelecer a passagem da chamada “subjectidade”/subjectité (em termos técnicos, o sujeito atributo de predicados) à “subjetividade”/subjectivité (em termos mais ou menos técnicos, o sujeito agente).

É por isso que Alain de Libera encontra-se em uma bendita encruzilhada filosófica — e também, em sua esteira, Kristell Trego (“Substance, sujet, acte. La première réception latine d’Aristote : Marius Victorinus et Boèce“) e Juvenal Savian Filho (“Sobre uma interpretação recente da tríade ‘ser’, ‘isto que é’ e ‘forma essendi’ em Boécio“).

Subjectidade x subjetividade (Martin Heidegger e Alain de Libera)

Alain de Libera
Alain de Libera, autor da série Arqueologia do Sujeito

La distinction entre subjectité et subjectivité, qui me semble décisive et que j’emprunte à Heidegger. La subjectité désigne le fait d’être le support d’accidents ou d’attributs : cela correspond, en gros, à l’hupokeimenon grec. La subjectivité, elle, suppose la présence d’un ego. Pour que le sujet devienne agent, il faut, comme le dit Heidegger, que subiectum et ego se rencontrent, c’est-à-dire que subjectité et égoïté (Ichheit) se rencontrent : « la « subjectivité » de la métaphysique moderne est un « mode de la subjectité ». Pour Heidegger, le passage de la « subjectité » à la « subjectivité », qui signe l’entrée dans la modernité, se laisse penser à partir de Descartes comme le moment où l’ego, devenu le « sujet insigne », acquiert le statut d’étant « le plus véritable ». C’est ce que je discute dans l’Archéologie du sujet. (inEntretien avec Alain de Libera : autour de l’Archéologie du sujet“, Actu-philosophia, 4 de janeiro de 2009.)

“A montanha pariu um rato” (de Esopo a Horácio)

Vamos lá. Nunca comece um texto pela conjunção “e” seguida por elipse —

Também nunca comece um texto com um expletivo do tipo “vamos lá!” (on y va! let’s go!).

Infelizmente, vivemos em tempos em que, como sempre, se nos faz dizer banalidades como “nos dias de hoje”, “em nossos tempos” e por aí vai.

Cacofonia geral e irrestrita aliada à confusão conceitual

Mas uma pergunta simples, jogado fora (como se viu acima) todo o beletrismo e deixando de brincar com auto-referências sentenciais ou proposicionais: o que se dá quando se cruza o que é “cafona” (uma palavra ela mesma cafona e démodé, esta última também out of fashion) com o que seria um “cacófato”? Ora, temos um sonoro e horripilante cacófono.

De todo modo, trata-se daquilo que iria diretamente contra a eufonia, o bom e belo som que deve acompanhar a expressão de um discurso qualquer, seja ele textual ou simplesmente verbal.

Exemplos de cacófonos e de conceitos malformados: “mediocristão”, “extremistão” e “fimdomundistão”.

Nassim Nicholas Taleb e Daniel Kahneman discutem o Antifrágil na Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL)

Poder-se-ia talvez atribuir tais noções à influência do “Mensalão” e também do agora “Petrolão”. Mas Nassim Nicholas Taleb nos fez o favor de empoderar a língua portuguesa com tal “conceitografia” malcheirosa.

Digamos, para simplificar bastante a coisa, que o “mediocristão” é o mundo da mediocridade, em que impera, obviamente, a média ou a estabilidade. Já o “extremistão” é o mundo dos extremos, dos eventos do tipo “cisne negro”, que se aproximam da ilha de Patmos e que levam um jornalista bem letrado a declamar poemas a uma sua fonte e a começar a falar em “fim dos tempos” (ou em “fimdomundistão”, um belíssimo cacófono, muito pouco eufônico).

Tweets nada mais são que grunhidos que contribuem para uma conversa em escala massiva repleta de ruído

Como adverti de início, interessa-me muito pouco expressar-me aqui e agora de maneira bela e moral. Interessa-me mais a malformação conceitual e o assalto à língua pátria impetrado pelos meios de comunicação velhos e novos. A imprensa anã dos intelectuais de Twitter (aqueles que tuitam nada mais do que tweet, como pintinhos que piam). Prefiro sinceramente a essa alternativa de meio de comunicação o tweeter responsável pelos sons agudos de minhas caixas de som, que são contrabalançados por efeitos de bass (grave) e treble (agudo).

Símbolo do Twitter
Símbolo do Twitter

Um ralo conhecimento de acústica e o atentar-se ao símbolo do Twitter deixaria muito claro como funciona esse mundo dos pintinhos que piam sem parar, com seus trending topics sempre relevantes, às vezes assaltados por Jimmy Fallon e sua fanfarronice descompromissada — afinal, vivemos em tempos de Stephen Colbert e Trevor Noah, embora no caso brasileiro tenhamos um Bial, um Gentili e um Porchat, talk shows realmente apocalípticos.

Pensando bem, fazendo vênia à definição do Merriam-Webster para o termo, tweet ou tuitar nada mais é que contribuir com um gritinho ressonante no meio da cacofonia da teia mundial de produção de ruído em massa.

O desmonte da presidência e do sistema político brasileiro como espetáculo em rede nacional e nas redes sociais

Horácio, Ars Poetica, 136-9
Horácio, Ars Poetica, 136-9

Depois da barriga de Lauro Jardim e da repercussão do Jornal Nacional e do bombardeamento não só pela GloboNews mas também por toda a mídia e por toda a gente, parece que as pessoas realmente perderam a noção da realidade. Antes já se falava em “ruído do tempo” sem se perceber que a própria noção de tempo é uma construção subjetiva para aquilo que não passa de “ruído cósmico” (o próprio conceito humano de tempo).

Reverberações acústicas caóticas em escala cósmica

Mas as pessoas perderam a noção há muito tempo. Não se atentam para o fato de que não há som nem acústica sem ar ou atmosfera e sem um centro nervoso para processar a isso que se chama de som. Muitos, diante do caos que viam no desvelar das notícias, escreveram epitáfios filosofantes sobre a “cidadela interior”, sobre como nós deveríamos voltar aos bons e velhos tempos em que a filosofia, num mundo em que o Império caía, voltava-se para si mesmo, para a ilha do eu sozinho com Deus. Só que Agostinho, o santo, não escreveu um livrinho chamado A Cidade Interior. O nome é outro, não? A noção mesma de um “eu” é ela mesma problemática e se fosse para se falar em epifenômeno, o córtex cerebral e o advento da (auto-)consciência deveriam ser os responsáveis evolucionários.

Usando figuras temporárias como filtros para uma tentativa de estipulação bayesiana do que vem ocorrendo

Moro frente a Anderson Cooper no 60 minutes
Moro frente a Anderson Cooper no 60 minutes

Sim, estou usando uma espécie de linguagem cifrada e críptica para falar de algo sério. Muito se falou em conservadorismo frente a reacionarismo — alguns acusam a existência de uma direita xucra, outros falam em uma nova direita jacobina, não errando no ponto. Também se pode falar em “conservadores revolucionários” e a comparação que Moro estabeleceu entre si e Eliot Ness é sintomática de alguém que está fazendo um paralelo biográfico e escrevendo para si uma profecia autorrealizável muito, como diria Trump, triste! (Inserir aqui um grande e trumpiano SAD!).

Pessoal, posso ficar aqui falando sozinho por muito tempo. Não tenho pressa. Tenho todo o tempo do mundo até para me explicar a “mim mesmo” (este não ente, a reificação ou a hipostasiação do “eu”). Mas com essa terminologia patética do “mediocristão”, do “extremistão” e do “fimdomundistão” vocês estão deixando de aplicar uma regra de prudência que se chama, à minha revelia, “correção bayesiana” — donde o caráter ensaístico deste Post Scriptum.

No fim, bastou um ciclo de notícias para que Temer lançasse dos subterrâneos o seu horaciano “a montanha pariu um rato” (parturiunt montes, nascetur ridiculus mus).

Resumo provisório da ópera e do ciclo infinitesimal de notícias e narrativas

Buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea (Sagittarius A* ou Sgr A*)
Buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea (Sagittarius A* ou Sgr A*)

Much ado about nothing. Sensacionalismo. Espetacularização. Juízos apressados. Barrigas jornalísticas associando um enunciado a um contexto anterior, prévio e lacônico. Mas eu digo a vocês, meus queridos, isso aí tem de continuar, viu? É tudo muito bom porque o país e o mundo expia a pressa do conceito e do juízo antecipado. Mas embora a Via Láctea, como outros galáxias, tenha em seu centro um buraco negro supermassivo, ainda estamos a uma distância de 26 mil anos-luz dele. Caminhando gravitacionalmente cada vez mais perto e mais longe, numa órbita elíptica, ainda chegaremos ao centro.

A ilha grega de Patmos, visões do fim dos tempos e arrematando com um excurso cósmico (ainda mais uma vez)

O fim está próximo. Sempre esteve. E por muito tempo ainda estará. Esse é só o começo. Talvez até vejamos um buraco negro supermassivo ser expulso do centro de uma galáxia por ondas gravitacionais. A astronomia e as chamadas leis da natureza talvez tenham muito a dizer sobre nosso imaginário político fático e narrativo. Talvez o que acontece no céu noturno seja de fato uma boa imagem para os acontecimentos terrenos. Mesmo que essa imagem não obedeça a tão questionada lei da causação (Deus o abençoe, David Hume!). A correlação cósmica, mesmo que ad hoc, porém, não deixa de ser literariamente interessante. A mão invisível de Júpiter (by Jove!) realmente esteve, está e estará lá para nos salvar — pelo menos por enquanto.

Parece que o escocês Adam Smith não estava totalmente correto em sua história da astronomia ao menosprezar a “mão invisível” neste caso.

É disto que precisamos!

Quanto a um dos gracejos acima arrolados, a fonte original é esta notícia: “Hubble detects supermassive black hole kicked out of galactic core”.

A prática aos pés da teoria e vice-versa

Theoria versus Praxis

Há de se ter um espaço para registrar os próprios pensamentos em tempos conturbados, embora a regra de prudência devesse talvez ser o silêncio. Porém, contra o vazio da fala, opõe-se a necessidade de se pensar sobre o que se passa. O sujeito submetido às notícias atrozes e ostensivas do dia, seja neste país, seja no mundo em geral, vê-se obrigado a pensar algo, mesmo que sob hipótese. A consequência contrária seria a anomia, não só da sociedade mas também do próprio pensamento, que sem o que pensar é vazio. Parece óbvio, mas é justamente a expressão de algumas obviedades — e de algumas outras não obviedades — o caminho que permite sair da indecisão solipsista a que os fatos têm jogado as instituições sociais e também as próprias faculdades mentais da pessoa que se vê obrigada a encarar, neste país, o que a imprensa ligada ao mercado financeiro apelidou de TNT — isto é, o atualíssimo e passageiro fenômeno Trump & Temer.