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De como Olavo de Carvalho não sabe nada de nada sobre o PSDB, o PT, o “socialismo fabiano”, nem sobre a noção de “revolução passiva” em Gramsci

Eu sei que esse tom de bravata deve ser modulado daqui em diante. Mas essa é uma “peça de resistência”. Sim, eu realmente acredito que Olavo de Carvalho fez muito mal à intelectualidade no Brasil e criou nano-fascistas da “alt right” e que isso não é bom. É gente que fala sem saber de nada. E isso está a anos-luz de “ciência” política. Por isso publico o texto abaixo, em que tentei deixar claro que a própria maneira com que Olavo de Carvalho sempre encarou o gramscismo, o PT e o PSDB é simplesmente uma distorção da realidade, uma espécie de “paralaxe cognitiva”, que faz afirmações que não dizem respeito factual a nenhum dos dois partidos de centro-esquerda ou mesmo de esquerda (no caso do PT), mesmo que este partido tenha do dia para a noite virado, em 2003, um partido que, no governo, praticava medidas neoliberais (no sentido daquele liberalismo que vem da Universidade de Chicago), do qual o próprio Bolsa Família faz parte enquanto uma prática do que esses “neoliberais” da escola de Chicago chamavam de “imposto negativo” (e aqui vejam Suplicy chamando a coisa pelo seu nome). Ao texto. Com o tempo vou acertando o tom, tanto quando falo do departamento de filosofia, como quando falo do próprio olavismo. Todo iconaclasmo deve proceder com uma “destruição respeitosa dos ídolos”. Agora, é óbvio que ninguém vai gostar do que tenho escrito. Mas não estou aqui para agradar ninguém, só para apontar para fatos e situações que me parecem um tanto arcaicas, ou simplesmente, no mais das vezes, simplesmente desonesta ou mal informada.

Se quiserem me bloquear, Filipe G. Martins e Olavo de Carvalho, eu fico aqui falando sozinho. Mas irei falar sobre e como acho que deva falar. E isto, daqui em diante, com modulações e em tom mais construtivo, do que destrutivo.

Remeto ao texto, porém, que é um comentário sobre um comentário de Olavo de Carvalho e de seu “pupilo” brasiliense, Filipe G. Martins, a quem sempre considerei uma pessoa temperada e amigável, embora eu ache que ele esteja indo por um péssimo caminho, defendendo Trump e o indefensável. Sem mais delongas, porém, sigamos com o texto.

Caveat: como se trata de texto de Facebook, e eu tenho feito um uso de hashtags tanto como “marketing de guerrilha”, como “auto-irônico”, o texto tem um caráter meio que de “internetês”. O que importa, porém, é apontar para o que de fato era o PT, o que de fato foi o PSDB, e como ambas se formaram. Nada tendo o PSDB a ver com “socialismo fabiano” e sendo esta uma expressão conceitual que diz nada sobre nada em quase nenhum momento histórico. Foi uma modinha temporada no Reino Unido da Grã-Bretenha no último quartel do século XIX e no primeiro quartel do século XX. Morreu cedo. O que resta do “movimento” hoje são relíquias. Eles não têm influência política nenhuma, e se tiverem é preciso mostrar que tenham. Mas duvideodó.

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Filipe G. Martins defende uma 'ciência' política que é somente 'ideologia' política, no sentido marxiano de ideologia
Filipe G. Martins defende uma ‘ciência’ política que é somente ‘ideologia’ política, no sentido marxiano de ideologia

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O que o Filipe não pode dizer é que Olavo de Carvalho usava muito, mas muito mal o conceito de #SocialismoFabiano, que nada, nada tem a ver com gramscismo, nada tem a ver com marxismo, nada tem a ver com nada do Brasil. Pobre Bernard Shaw, #RestInPeace.

Olavo sempre confundiu a social-democracia brasileira ou o partido que leva tal nome com “socialismo fabiano”. Às vezes chamava de “menchevique”. Coisa triste. Nada, mas nada a ver com nada.
Se isso passar por ciência política só o pode ser enquanto ideologia no sentido mais marxiano do termo: “mentira”.

Usar o conceito de “socialismo fabiano” (só porque Delfim Netto assim se definiu um dia, lá longe) é de uma caipirice que só podia vir de Campinas (nada contra a cidade, nem contra a Unicamp). É que a turma lá, como a turma cá do ABC Paulista, puxa o “r” e tal.

A melhor maneira de entender FHC é pelos debates cepalinos (o mesmo se pode dizer de Serra). A questão ali era totalmente outra, tinha a ver com Florestan Fernandes, com desenvolvimento do capitalismo no Brasil, e mil coisas mais. Havia um sociólogo na USP que dava aula sobre isso. Tenho o DVD dele, até talvez esteja no YouTube (se não estiver, eu ripo e ponho lá).

Aliás, quem entende melhor no Brasil o que era e o que representava o PSDB chama-se Reinaldo Azevedo, o sub-intelectual do partido. Em entrevista na #PrimeiraLeitura (vou pegar e escanear essa porcaria) fica cristalino do que se trata o #peessedebismo e a própria presidência de #FernandoHenrique, que até #MarilenaChaui veio a entender em 2006, “o novo príncipe”, aquela história toda.

Quanto ao PT e suas sub-facções alinhadas (#CUT, #PCdoB, #UNE, #MST, etc., etc.) ali a balbúrdia é enorme. Há um pouco de #Gramsci, há um pouco de #NewLeft americana, há “programa de renda mínima” (o que lembra o #neoliberalismo nato da #EscolaDeChicago), há trocentas mil coisas. Mas o que há principalmente é a #figuraweberiana do #LíderCarismático. O #PT não existe sem #Lula, vice-versa, e o Estadão sempre esteve certo ao grafar em editorial #lulopetismo. Não existe PT sem Lula e não existe Lula sem o PT. Mas existe o PT sem Toninho do PT (Campinas, #MartimVasquesDaCunha sabe disso) e existe PT sem #CelsoDaniel (eu sei bem disso, acompanhei todo o noticiário do prefeito de minha cidade in loco a partir de 20 de janeiro de 2002). Não, não vou olhar a data porque um é o dia em que ele é assassinado, lembro bem; outro é o dia em que ele é sequestrado (dois dias antes ou três).

E o PT sem Toninho e sem Celso Daniel tem dois nomes: #Palocci e #Mantega. Como um país pode ter tido dois ministros da Fazenda (Mantega foi do desenvolvimento no começo) que justamente manipulavam as finanças do próprio partido a partir de propina de mil e uma empresas campeãs nacionais?

E a Época e o #DiegoEscosteguy (editor da revista) vêm falar em derrubar #MichelTemer? Como se pode derrubar o subproduto — a PUTA do PT, empalar o empalador #Drácula — a 1 ano e alguns meses das #presidenciais? Como se pode dizer que #Temer é o líder da #ORCRIM (organização criminosa) mais perigosa do Brasil? Não, o líder da ORCRIM é Joesley Batista (em conluio com o PT) e sua assessoria de imprensa chama-se Rede Globo.

Enfim, #OlavoNãoTemRazão e #OlavoErraMuito.

(Publicado originalmente no Facebook em 1º de julho de 2017.)

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Começando uma longa conversa sobre « O Departamento Francês de Ultramar » (vai, Paulo Arantes!)

Foto do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (ou o Jardim das Aflições)

Como seria o mundo sem a Cidade Universitária da USP segundo o Estadão? Basta clicar no link à esquerda.

Quanto ao resto, por ora nada tenho a dizer. Vou me restringir nesse início às seguintes postagens em rede social:

Postagem 1

Tomei minha decisão, queridos Joel Pinheiro da Fonseca, Luiz Felipe Panelli, Ricardo Marques Silva, Daniel Nagase, mas fiquem tranquilos que a luta não é sua, nem vou ficar marcando vocês no futuro. Era só uma deliberação alegre (não brinco, estou feliz mesmo) tomada depois de uma boa e gostosa noite de sono bem dormida. E dormi pra valer mesmo. Até ronquei (preciso emagrecer e parar de fumar um maço por dia, hehe). Pena que titio Olavo de Carvalho me bloqueou, não adiantou nem a água santa de Filipe G. Martins.

 

Postagem 2

Se ele escreveu aquele livro sobre « ciclo de conferências sobre Ética na Política », organizado pela secretária da cultura, Marilena Chaui, realizado no MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, durante o governo Luiza Erundina (salvo engano), ele o fez sem ter passado 10 anos na USP, sem ter carteirinha e ainda ser aluno da licenciatura (como essas coisas acontecem, só a administração da FFLCH – USP pode explicar, ou do Departamento de Filosofia da USP ou da Filosofia FFLCH-USP).

Alguém precisa atualizar “instantaneamente”, ao longo dos próximos 18 meses, O Jardim das Aflições. Com um pouquinho mais de conhecimento de vivência por lá e por conhecer o #ModusOperandi interno da coisa, as disputas, as vaidades, as veleidades e também as cretinices; mas meu trabalho será mais arqueológico. Vamos revolver e revocar o campo santo da #FazendaButantan.

À luta, guerreiros! (Refiro-me à vitória exemplar dos Corinthianos ontem sobre o Avanti Palmeiras no estádio do #AranasPark).

“Quando se é”, “quem o é”, enunciados hipotéticos x categóricos, aspectos modais e outras firulas mais

Valeriana Officinalis Flower

Queridos, é o seguinte. Eu levo tudo, tudo na brincadeira. Mas se você questionar a minha gramática — fora o fato de eu escrever mal porque fico enchendo meu texto de comentários parentéticos — aí você me ofendeu.

Se alguém vier dizer que um enunciado do tipo “se x, [então] y” não é condicional, porque seria um pronome reflexivo (“se fez” é ambíguo, p.ex., porque o pronome reflexivo pode estar ali, mas pode estar omitido), aí sim você vai ter uma briga de morte comigo. Fora isso, pode xingar até a minha progenitora e eu estarei mijando e andando para você.

De novo, e vamos aqui tomar o trecho textual em sua “clareza mais clarividente”:

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a […]. »

Bom, o caso é um tanto complexo e ambíguo mesmo, não vou negar. Mas com um pouquinho de chá de valeriana ou camomila e boa vontade vê-se que é um enunciado condicional, no subjuntivo (em minha leitura pessoal).

Vejamos:

« quando você mesmo se recusa a… ».

Okay, pensando bem, aqui a única leitura é de pronome reflexivo. Mas avancemos um pouco mais. [caveat: mudei de ideia.]

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo […] »

Talvez o contexto seja crucial aqui, não sei; posso ter escrito mal mesmo. Isso não é raro, é o mais comum. Sou meio acelerado. Mas sigamos.

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual. »

Um “se se recusa” aí é agramatical, porque já se tem o pronome de tratamento “você”.

[Uma formulação sem “você” poderia permitir uma assertiva hipotética do tipo: “quando se se recusa a”. Esse é o problema. E cá estou eu editando o texto depois de tê-lo escrito e mudando de ideia de novo.]

Então o que diabos pode dar um sentido condicional ao trecho em questão? Por que o “se” ali na minha cabeça não é reflexivo?

Reformulemos: « […] quando você mesmo se recusa […] ».

Okay, quedo vencido. Errei. [caveat: só que não; mudei de leitura pouco depois.] Não há leitura possível do trecho como podendo ser um enunciado do tipo “se x, então y”.

Sempre que se usa um “quando”, seu aspecto é [quase?] sempre indicativo. Daí a diferença entre “quando eu faço isso” e “se eu faço isso”.

A única defesa que posso ter aqui é dizer que eu estava falando genericamente. Hábito que eu tanto reprovo nos outros. Agora, se eu estava falando genericamente, como esse conjunto de enunciados pode ser ele asseverativo e não hipotético? E se é hipotético, então é condicional.

Lendo sem se colocar no quadro que eu indico ali, é possível fazer uma leitura do tipo “se se faz isso, logo se é”. Mas se eu disse o nome da pessoa, e digo “quando se faz isso”, trata-se sim de um pronome reflexivo [caveat: só que não, sigamos].

O problema, e esse é o busílis (ui), é que para mim, sincera e honestamente, o conjunto de sentenças era « hipotético » e não « categórico ». Algo como, “quem trai o amigo”, ou “quando se trai o amigo”. Esse tipo de frase não diz respeito a fatos no mundo, mas a modalidades potenciais ou possíveis. E se diz respeito a um modo “possível”, logo, mesmo estando formulado no indicativo e não no subjuntivo (ou poderia estar? talvez se eu tivesse usado “seria” [futuro do pretérito do indicativo] ou “fosse” [pretérito imperfeito do subjuntivo]), o conjunto de enunciados diz respeito ao que “poderia ser” (modal possível) e não um “é” (factual e indicativo de um estado de coisas). Principalmente quando não sei se a pessoa pensa aquilo mesmo.

Enfim, errei quando disse que aquilo ali era um “se” condicional [caveat: logo abaixo explico por que vim a entender que não, não errei]; não me parece ser possível defender gramaticalmente essa leitura. Mas, quero crer, e sendo muito sincero, que o conjunto de enunciados ali em cima não é assertivo, nem categórico, mas hipotético. “Quando alguém faz isso” mesmo que conjugado no indicativo, parece-me e soa-me subjuntivo (do mundo do “poderia ser” e não do “é”). Do mundo das possibilidades e não do mundo tal como ele é.

*

Dito isto, mudei de ideia. Eu entendi qual é o pronome da frase no meio da revisão deste texto. O problema é justamente o pronome de tratamento “você”, que atrapalha a leitura.

Vou tentar de novo. Formulação original:

(1) « É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual. »

Okay. Agora eu vou reformular esse mesmo conjunto de enunciados sem o pronome de tratamento “você” e testar para ver o que acontece.

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual.

Okay. Aparentemente, eu tinha razão. O papel de “você mesmo” ali é de um pronome reflexivo formulado com o pronome de tratamento “você” mais o próprio reflexivo “mesmo”. Dizer “você mesmo” é uma maneira coloquial de se usar o pronome reflexivo “se”. Então de fato, embora o “se se” fosse agramatical numa sentença com “você mesmo…”, quando eu digo “você mesmo” essa expressão já funciona ela mesma como o pronome reflexivo “se”. Simples assim. Deste modo, sem perda ou mudança de sentido do original, eu poderia ter escrito de outra maneira, que aqui chamo de “formulação com alteração, mas sem adulteração”:

(2) « É fácil falar isso quando se se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual.

Curiosamente, tudo o que fiz foi tirar o “você mesmo” e trocar pelo pronome reflexivo “se”. Portanto, eu estava certo, depois estava errado, e agora estou certo de novo. Pensar dói. Mas pelo menos aprendi (sério, isso aqui é #nascoxa) que “você mesmo” exerce o mesmo papel gramatical que o pronome reflexivo “se” e naquela formulação original mesmo, quando digo “quando você mesmo se recusa”, “você mesmo” funciona como “se” reflexivo e aquele “se” ali é sim gramatical e sintaticamente um “se” hipotético ou condicional. E eu diria que isso faz com que tudo que foi escrito ali está, mesmo que não formalmente, sei lá, pelo menos informalmente no subjuntivo, no mundo do “pode ser que quando” e não no mundo “quando é assim”. Embora mesmo nesse último caso, o “quando” também tenha ali um aspecto subjuntivo e hipotético. Porque “quando é assim”, embora “é” esteja no indicativo, não diz respeito ao mundo como ele é (ou como indico que ele seja no indicativo), e sim como quando o mundo pode ser assim, apesar de formalmente o “é” estar no indicativo.

Ou seja, a própria língua portuguesa clama pelo noção de aspecto, porque as formas sintáticas de conjugação dos verbos são insuficientes para dar o sentido conotativo, e não denotativo de algumas formulações que nunca foram ofensivas na cabeça daquele que as formulou.

[E não, não tenho certeza se denotação ou conotação tem a ver com esse imbróglio chato do baralho.]

É preciso tentar entender de onde vem a burrice do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua (VPR)

Manifestações de Junho de 2013, período em que Dilma Rousseff sancionou a Lei da Delação Premiada (Lei n.º 12.850, de 2 de agpsto de 2013)

Tenho feito e proclamado o quanto posso a diferença óbvia entre « teoria da conspiração » e « prática conspiratória ». O que acontece hoje no Brasil é um espelho sub-óptico para o que vem acontecendo nos Estados Unidos e no resto do mundo. Sim, vou usar o vídeo do Joel para apontar uma falha: ele se recusa a especular quanto ao financiamento intelectual do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua (VPR), essas entidades partisan (e aqui o termo é preciso e técnico, por isso não “partidário”), que não passam de massa de manobra para uma luta mundial da qual o Brasil é um mero satélite.

Até posso brincar de troll no Twitter e no Facebook, mas se for para falar a sério, e apenas com um tom sóbrio, eu também posso fazer isso. De fato, aquele movimento que se mimetiza como uma farsa do Movimento Passe Livre (MPL) nas jornadas de junho de 2013 veio a constituir algo que o vocabulário filosófico nos permite dizer o nome da coisa, do fenômeno, da maneira mais clara possível: o MBL e o VPR não passam de um simulacro muito do ruim do que era o MPL. Simples assim.

Isto a que chamo há um bom tempo de « novíssima direita », embora no passado dissesse respeito apenas ao olavismo militante e festivo, veio a se tornar uma farsa ideológica no sentido mais marxiano e puro do termo. Mas não vou eu aqui agora dar aula de o que significa ideologia em Marx. Isso fica para os próximos meses, e a luta vai ser dura. É preciso, de todo modo, de um projeto pedagógico, que explique da maneira a mais simples possível os erros grosseiros que são cometidos propositadamente associando certos jornalistas de esquerda àquilo que Kellyanne Conway cunhou como « fake news », « alternative facts », e isto num mundo pós-moderno, em que impera a pós-verdadepost-truth world »).

O perigo que se está correndo no Brasil é enorme e começo a apontar para certas organizações que vêm trabalhando para espalhar essa ideologia da chamada « novíssima direita », que é totalmente vinculada a Edward Snowden, Vladimir Putin e Sergey Lavrov. Poxa, mais « teoria da conspiração » ?

Edward Snowden: "a choice between Donald Trump e Goldman Sachs"
Edward Snowden: “a choice between Donald Trump e Goldman Sachs

Não, não é teórica, é prática de conspiração, visto que a campanha de Donald Trump  se beneficiou enormemente de um « comando » vindo da Rússia que apregoava que a opção era entre « Goldman Sachs » ou « Donald Trump ».

O que esse pessoal do MBL e do VPR estão fazendo é simplesmente mimetizar infantilmente algo que veio de fora. Não foi à toa que a Wikileaks vazou o discurso de Hillary Clinton no Goldman Sachs poucos dias ou semanas antes da eleição — escrevo de memória, com o tempo os devidos dados e as informações precisas virão à tona.

De todo modo, é preciso sim combater essa turma que se comporta exatamente como os gestores da campanha de Trump trabalharam. Falavam de « George Soros », da « Fundação Ford », do « Council on Foreign Relations », etc. Há um fundo de verdade nisso tudo? Sim. O problema é que toda mentira e toda ideologia se propaga justamente com algum elemento de verdade. Não há mentira que não se propague memética e mimeticamente sem algum fundo de verdade.

Só que quem patrocina, com ou sem dinheiro, a ideologia desse pessoal e seu discursinho falso, barato e fragilista? Isso aqui é importante começar a investigar. E o que a campanha de Trump mais evitava durante as eleições era justamente o « fact checking », o instrumento mais básico do jornalismo e da reportagem jornalística. Se não há ninguém para checar o que dizem, vão fazer como Trump, que especulava que a taxa de desemprego “real” — ele “ouvira” falar, e assim ele se pronunciou —  beirava a 30, 40, 50%?!

Ora, nenhuma democracia funciona sem uma imprensa forte, cujo papel não é o de ser ela mesma a engendrar movimentos de rua, de manifestações, etc., como a Globo fez com os caras pintadas, e isto depois de ter eleito Collor com edição do debate contra Lula no segundo turno de 1989; isso quando eles fizeram uma novela que espelhava justamente a figura do “caçador de marajás” (ou de “maracujás“, como retrucou jocosamente Lula em um dos debates de 1989).

Eu já disse mais do que queria dizer. Mas digo que não, não é « teoria da conspiração ». As pessoas precisam urgentemente começar a se informar sobre o que foi o evento dos « Red Balloons Challenge » da DARPA (agência ligada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, criadora da internet) em 2009, pouco antes do início daquele troço esquisito que foi a « Primavera Árabe » e precisam também começar a entender o que empresas como « Cambridge Analytica » estão aí para fazer. Com o tempo, vou desenrolar esse nó e juntar tudo num discurso coerente. Mas tudo que a realidade nos oferece neste momento são meros vislumbres de manipulação, que não se sabe muito bem a origem.

Joel Pinheiro da Fonseca está certíssimo em chamar a atenção do MBL (e do VPR, indiretamente, creio), porque o que estão fazendo chama-se simplesmente « canalhice intelectual ». E se há uma hora para não se calar, para não se ausentar, para não fugir da raia, é agora; mesmo que eu tenha que abandonar a fanfarronice e começar a acender vela para quem faz um trabalho de jornalismo sério, mesmo que esse jornalismo venha da esquerda ou de uma direita jacobina e tosca.

Em suma, pensava eu hoje no fim da força-tarefa da Lava Jato e em seus efeitos deletérios para a economia do país, e para o debate público em geral, muito « desinformado » — aqui Joel usou o termo em sua acepção mais correta, porque « mal informado » é quem não tem a informação correta, « desinformado » é quem é vítima de informação proveniente de propaganda revestida de verdade.

E o que eu pensava se dá mais ou menos nesses termos: já findou a hora de passar o Brasil a limpo. Não importa mais saber o que aconteceu no « passado ». Os players políticos estão todos mancos. O que importa é pensar « hoje » e « agora », « já » no Brasil que queremos para o « amanhã ». Pode parecer um clichê, pode parecer que eu virei o que eu acusava os outros de ser, « expectadores » (aqueles que criam expectativas mirabolantes e revolucionárias); mas embora eu diga que as coisas têm de mudar, ainda assim fico aqui no meu papel de mero espectador dos eventos do mundo. Mesmo que eu venha a intervir no debate público. Afinal, esse é meu papel de « intelectual orgânico  do conservadorismo prudencial e cético ». Sim, usei uma linguagem barroca, mas é urgente distinguir a « direita xucra e jacobina e burra » de uma direita que nem direita quer ser; não importa ser de direita, importa ser direito, reto, correto. E contra fatos não há argumentos. Outro clichê, sim. Só que « MBL », « VPR » e quejandos nem argumentos têm! São de uma « pseudo-intelectualidade e militância tão infantóide », tão primária, que nem têm o que dizer seja sobre o que for. Só apelam para manifestações baixas e vis, quando o que o Brasil precisa hoje é de gente séria, trabalhando a sério e pensando o país sob uma perspectiva mais ampla.

Sim, isso inclui ler os clássicos. Martim Vasques da Cunha e Fernando Haddad são dois pólos opostos de um fenômeno que, a despeito de suas falhas e basbaquices, estão aí para produzir algo diferente. Agora, eu sinceramente não acho que vai ser a retroalimentação de um discursinho repetitivo, autorrotulado de conservador, como o de Bruno Garschagen ou de Rodrigo Constantino o que vai nos salvar (muito menos seja o que vier do « clã da família Bolsonaro »).

Falta-lhes noção histórica do que é « a questão brasileira ». Eles (Garschagen e Constantino) a entendem muito mal, embora o primeiro queira brincar de Winston Churchill e o segundo de Ron Paul ou até Paul Ryan.

A reação que Joel Pinheiro da Fonseca mostra nesse vídeo, sem incensá-lo, é exatamente aquilo de que precisamos. Mais gente que saiba pensar e cujos dois neurônios não funcionem na base de « amigos x inimigos », « globalistas x patriotas », « esquerda ou direita ».

Ronald Reagan já alertava para algo parecido em discurso de 1963. Não é o « fenômeno do trumpismo » a resposta a problema nenhum. É uma mudança brutal na cabeça oca desses libertários que nasceram ontem e nem sabem aonde vão, nem de onde vieram, pastiche que são de um próprio movimento que ele mesmo era de esquerda, o MPL, que inerme que fosse, pelo menos era mais honesto que esses simulacros que vieram a formar as hordas da « Novíssima Direita ».

*

Abaixo segue um artigo do Valor Econômico sobre a Cambridge Analytica. Vejam, Joel Pinheiro da Fonseca falha apenas em não enxergar (por ora) de onde vem o ataque que esses caras estão fazendo. Isso envolve questões como « big data », « manipulação mal-intencionada e de má-fé de redes sociais » — nas quais lacram e mitam o tempo todo — e « marketing de guerrilha » que é ele muito nocivo quando usado pelas mãos erradas de quem não sabe aonde quer chegar com o que propaga.

Infelizmente, a matéria original do Valor Econômico (“Após Trump e Brexit, Cambridge Analytica vai operar no Brasil“, 13/03/2017) é fechada para quem não assina o jornal.

Só que, por acaso, o leitor pode a ela ter acesso via os prints abaixo. Lembrando que isso não é « teoria da conspiração », nem sequer responde a tudo. Mas dá indícios do que anda acontecendo nas redes sociais mundo afora, isso sem contar « os recentes ataques via ransomware ».

O mundo virtual é cada vez mais perigoso. E talvez um dia os bravos guerreiros de hoje ficarão sem paciência e energia para seguir em frente combatendo o bom combate. Simples assim.

Ao artigo do Valor Econômico abaixo (para quem interessar possa):

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