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“Quando se é”, “quem o é”, enunciados hipotéticos x categóricos, aspectos modais e outras firulas mais

Valeriana Officinalis Flower

Queridos, é o seguinte. Eu levo tudo, tudo na brincadeira. Mas se você questionar a minha gramática — fora o fato de eu escrever mal porque fico enchendo meu texto de comentários parentéticos — aí você me ofendeu.

Se alguém vier dizer que um enunciado do tipo “se x, [então] y” não é condicional, porque seria um pronome reflexivo (“se fez” é ambíguo, p.ex., porque o pronome reflexivo pode estar ali, mas pode estar omitido), aí sim você vai ter uma briga de morte comigo. Fora isso, pode xingar até a minha progenitora e eu estarei mijando e andando para você.

De novo, e vamos aqui tomar o trecho textual em sua “clareza mais clarividente”:

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a […]. »

Bom, o caso é um tanto complexo e ambíguo mesmo, não vou negar. Mas com um pouquinho de chá de valeriana ou camomila e boa vontade vê-se que é um enunciado condicional, no subjuntivo (em minha leitura pessoal).

Vejamos:

« quando você mesmo se recusa a… ».

Okay, pensando bem, aqui a única leitura é de pronome reflexivo. Mas avancemos um pouco mais. [caveat: mudei de ideia.]

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo […] »

Talvez o contexto seja crucial aqui, não sei; posso ter escrito mal mesmo. Isso não é raro, é o mais comum. Sou meio acelerado. Mas sigamos.

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual. »

Um “se se recusa” aí é agramatical, porque já se tem o pronome de tratamento “você”.

[Uma formulação sem “você” poderia permitir uma assertiva hipotética do tipo: “quando se se recusa a”. Esse é o problema. E cá estou eu editando o texto depois de tê-lo escrito e mudando de ideia de novo.]

Então o que diabos pode dar um sentido condicional ao trecho em questão? Por que o “se” ali na minha cabeça não é reflexivo?

Reformulemos: « […] quando você mesmo se recusa […] ».

Okay, quedo vencido. Errei. [caveat: só que não; mudei de leitura pouco depois.] Não há leitura possível do trecho como podendo ser um enunciado do tipo “se x, então y”.

Sempre que se usa um “quando”, seu aspecto é [quase?] sempre indicativo. Daí a diferença entre “quando eu faço isso” e “se eu faço isso”.

A única defesa que posso ter aqui é dizer que eu estava falando genericamente. Hábito que eu tanto reprovo nos outros. Agora, se eu estava falando genericamente, como esse conjunto de enunciados pode ser ele asseverativo e não hipotético? E se é hipotético, então é condicional.

Lendo sem se colocar no quadro que eu indico ali, é possível fazer uma leitura do tipo “se se faz isso, logo se é”. Mas se eu disse o nome da pessoa, e digo “quando se faz isso”, trata-se sim de um pronome reflexivo [caveat: só que não, sigamos].

O problema, e esse é o busílis (ui), é que para mim, sincera e honestamente, o conjunto de sentenças era « hipotético » e não « categórico ». Algo como, “quem trai o amigo”, ou “quando se trai o amigo”. Esse tipo de frase não diz respeito a fatos no mundo, mas a modalidades potenciais ou possíveis. E se diz respeito a um modo “possível”, logo, mesmo estando formulado no indicativo e não no subjuntivo (ou poderia estar? talvez se eu tivesse usado “seria” [futuro do pretérito do indicativo] ou “fosse” [pretérito imperfeito do subjuntivo]), o conjunto de enunciados diz respeito ao que “poderia ser” (modal possível) e não um “é” (factual e indicativo de um estado de coisas). Principalmente quando não sei se a pessoa pensa aquilo mesmo.

Enfim, errei quando disse que aquilo ali era um “se” condicional [caveat: logo abaixo explico por que vim a entender que não, não errei]; não me parece ser possível defender gramaticalmente essa leitura. Mas, quero crer, e sendo muito sincero, que o conjunto de enunciados ali em cima não é assertivo, nem categórico, mas hipotético. “Quando alguém faz isso” mesmo que conjugado no indicativo, parece-me e soa-me subjuntivo (do mundo do “poderia ser” e não do “é”). Do mundo das possibilidades e não do mundo tal como ele é.

*

Dito isto, mudei de ideia. Eu entendi qual é o pronome da frase no meio da revisão deste texto. O problema é justamente o pronome de tratamento “você”, que atrapalha a leitura.

Vou tentar de novo. Formulação original:

(1) « É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual. »

Okay. Agora eu vou reformular esse mesmo conjunto de enunciados sem o pronome de tratamento “você” e testar para ver o que acontece.

« É fácil falar isso quando você mesmo se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual.

Okay. Aparentemente, eu tinha razão. O papel de “você mesmo” ali é de um pronome reflexivo formulado com o pronome de tratamento “você” mais o próprio reflexivo “mesmo”. Dizer “você mesmo” é uma maneira coloquial de se usar o pronome reflexivo “se”. Então de fato, embora o “se se” fosse agramatical numa sentença com “você mesmo…”, quando eu digo “você mesmo” essa expressão já funciona ela mesma como o pronome reflexivo “se”. Simples assim. Deste modo, sem perda ou mudança de sentido do original, eu poderia ter escrito de outra maneira, que aqui chamo de “formulação com alteração, mas sem adulteração”:

(2) « É fácil falar isso quando se se recusa a reconhecer o papel #partisan da Globo, que decidiu que jornalismo é panfletagem. Isso sim é desonestidade intelectual.

Curiosamente, tudo o que fiz foi tirar o “você mesmo” e trocar pelo pronome reflexivo “se”. Portanto, eu estava certo, depois estava errado, e agora estou certo de novo. Pensar dói. Mas pelo menos aprendi (sério, isso aqui é #nascoxa) que “você mesmo” exerce o mesmo papel gramatical que o pronome reflexivo “se” e naquela formulação original mesmo, quando digo “quando você mesmo se recusa”, “você mesmo” funciona como “se” reflexivo e aquele “se” ali é sim gramatical e sintaticamente um “se” hipotético ou condicional. E eu diria que isso faz com que tudo que foi escrito ali está, mesmo que não formalmente, sei lá, pelo menos informalmente no subjuntivo, no mundo do “pode ser que quando” e não no mundo “quando é assim”. Embora mesmo nesse último caso, o “quando” também tenha ali um aspecto subjuntivo e hipotético. Porque “quando é assim”, embora “é” esteja no indicativo, não diz respeito ao mundo como ele é (ou como indico que ele seja no indicativo), e sim como quando o mundo pode ser assim, apesar de formalmente o “é” estar no indicativo.

Ou seja, a própria língua portuguesa clama pelo noção de aspecto, porque as formas sintáticas de conjugação dos verbos são insuficientes para dar o sentido conotativo, e não denotativo de algumas formulações que nunca foram ofensivas na cabeça daquele que as formulou.

[E não, não tenho certeza se denotação ou conotação tem a ver com esse imbróglio chato do baralho.]

É preciso tentar entender de onde vem a burrice do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua (VPR)

Manifestações de Junho de 2013, período em que Dilma Rousseff sancionou a Lei da Delação Premiada (Lei n.º 12.850, de 2 de agpsto de 2013)

Tenho feito e proclamado o quanto posso a diferença óbvia entre « teoria da conspiração » e « prática conspiratória ». O que acontece hoje no Brasil é um espelho sub-óptico para o que vem acontecendo nos Estados Unidos e no resto do mundo. Sim, vou usar o vídeo do Joel para apontar uma falha: ele se recusa a especular quanto ao financiamento intelectual do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Vem Pra Rua (VPR), essas entidades partisan (e aqui o termo é preciso e técnico, por isso não “partidário”), que não passam de massa de manobra para uma luta mundial da qual o Brasil é um mero satélite.

Até posso brincar de troll no Twitter e no Facebook, mas se for para falar a sério, e apenas com um tom sóbrio, eu também posso fazer isso. De fato, aquele movimento que se mimetiza como uma farsa do Movimento Passe Livre (MPL) nas jornadas de junho de 2013 veio a constituir algo que o vocabulário filosófico nos permite dizer o nome da coisa, do fenômeno, da maneira mais clara possível: o MBL e o VPR não passam de um simulacro muito do ruim do que era o MPL. Simples assim.

Isto a que chamo há um bom tempo de « novíssima direita », embora no passado dissesse respeito apenas ao olavismo militante e festivo, veio a se tornar uma farsa ideológica no sentido mais marxiano e puro do termo. Mas não vou eu aqui agora dar aula de o que significa ideologia em Marx. Isso fica para os próximos meses, e a luta vai ser dura. É preciso, de todo modo, de um projeto pedagógico, que explique da maneira a mais simples possível os erros grosseiros que são cometidos propositadamente associando certos jornalistas de esquerda àquilo que Kellyanne Conway cunhou como « fake news », « alternative facts », e isto num mundo pós-moderno, em que impera a pós-verdadepost-truth world »).

O perigo que se está correndo no Brasil é enorme e começo a apontar para certas organizações que vêm trabalhando para espalhar essa ideologia da chamada « novíssima direita », que é totalmente vinculada a Edward Snowden, Vladimir Putin e Sergey Lavrov. Poxa, mais « teoria da conspiração » ?

Edward Snowden: "a choice between Donald Trump e Goldman Sachs"
Edward Snowden: “a choice between Donald Trump e Goldman Sachs

Não, não é teórica, é prática de conspiração, visto que a campanha de Donald Trump  se beneficiou enormemente de um « comando » vindo da Rússia que apregoava que a opção era entre « Goldman Sachs » ou « Donald Trump ».

O que esse pessoal do MBL e do VPR estão fazendo é simplesmente mimetizar infantilmente algo que veio de fora. Não foi à toa que a Wikileaks vazou o discurso de Hillary Clinton no Goldman Sachs poucos dias ou semanas antes da eleição — escrevo de memória, com o tempo os devidos dados e as informações precisas virão à tona.

De todo modo, é preciso sim combater essa turma que se comporta exatamente como os gestores da campanha de Trump trabalharam. Falavam de « George Soros », da « Fundação Ford », do « Council on Foreign Relations », etc. Há um fundo de verdade nisso tudo? Sim. O problema é que toda mentira e toda ideologia se propaga justamente com algum elemento de verdade. Não há mentira que não se propague memética e mimeticamente sem algum fundo de verdade.

Só que quem patrocina, com ou sem dinheiro, a ideologia desse pessoal e seu discursinho falso, barato e fragilista? Isso aqui é importante começar a investigar. E o que a campanha de Trump mais evitava durante as eleições era justamente o « fact checking », o instrumento mais básico do jornalismo e da reportagem jornalística. Se não há ninguém para checar o que dizem, vão fazer como Trump, que especulava que a taxa de desemprego “real” — ele “ouvira” falar, e assim ele se pronunciou —  beirava a 30, 40, 50%?!

Ora, nenhuma democracia funciona sem uma imprensa forte, cujo papel não é o de ser ela mesma a engendrar movimentos de rua, de manifestações, etc., como a Globo fez com os caras pintadas, e isto depois de ter eleito Collor com edição do debate contra Lula no segundo turno de 1989; isso quando eles fizeram uma novela que espelhava justamente a figura do “caçador de marajás” (ou de “maracujás“, como retrucou jocosamente Lula em um dos debates de 1989).

Eu já disse mais do que queria dizer. Mas digo que não, não é « teoria da conspiração ». As pessoas precisam urgentemente começar a se informar sobre o que foi o evento dos « Red Balloons Challenge » da DARPA (agência ligada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, criadora da internet) em 2009, pouco antes do início daquele troço esquisito que foi a « Primavera Árabe » e precisam também começar a entender o que empresas como « Cambridge Analytica » estão aí para fazer. Com o tempo, vou desenrolar esse nó e juntar tudo num discurso coerente. Mas tudo que a realidade nos oferece neste momento são meros vislumbres de manipulação, que não se sabe muito bem a origem.

Joel Pinheiro da Fonseca está certíssimo em chamar a atenção do MBL (e do VPR, indiretamente, creio), porque o que estão fazendo chama-se simplesmente « canalhice intelectual ». E se há uma hora para não se calar, para não se ausentar, para não fugir da raia, é agora; mesmo que eu tenha que abandonar a fanfarronice e começar a acender vela para quem faz um trabalho de jornalismo sério, mesmo que esse jornalismo venha da esquerda ou de uma direita jacobina e tosca.

Em suma, pensava eu hoje no fim da força-tarefa da Lava Jato e em seus efeitos deletérios para a economia do país, e para o debate público em geral, muito « desinformado » — aqui Joel usou o termo em sua acepção mais correta, porque « mal informado » é quem não tem a informação correta, « desinformado » é quem é vítima de informação proveniente de propaganda revestida de verdade.

E o que eu pensava se dá mais ou menos nesses termos: já findou a hora de passar o Brasil a limpo. Não importa mais saber o que aconteceu no « passado ». Os players políticos estão todos mancos. O que importa é pensar « hoje » e « agora », « já » no Brasil que queremos para o « amanhã ». Pode parecer um clichê, pode parecer que eu virei o que eu acusava os outros de ser, « expectadores » (aqueles que criam expectativas mirabolantes e revolucionárias); mas embora eu diga que as coisas têm de mudar, ainda assim fico aqui no meu papel de mero espectador dos eventos do mundo. Mesmo que eu venha a intervir no debate público. Afinal, esse é meu papel de « intelectual orgânico  do conservadorismo prudencial e cético ». Sim, usei uma linguagem barroca, mas é urgente distinguir a « direita xucra e jacobina e burra » de uma direita que nem direita quer ser; não importa ser de direita, importa ser direito, reto, correto. E contra fatos não há argumentos. Outro clichê, sim. Só que « MBL », « VPR » e quejandos nem argumentos têm! São de uma « pseudo-intelectualidade e militância tão infantóide », tão primária, que nem têm o que dizer seja sobre o que for. Só apelam para manifestações baixas e vis, quando o que o Brasil precisa hoje é de gente séria, trabalhando a sério e pensando o país sob uma perspectiva mais ampla.

Sim, isso inclui ler os clássicos. Martim Vasques da Cunha e Fernando Haddad são dois pólos opostos de um fenômeno que, a despeito de suas falhas e basbaquices, estão aí para produzir algo diferente. Agora, eu sinceramente não acho que vai ser a retroalimentação de um discursinho repetitivo, autorrotulado de conservador, como o de Bruno Garschagen ou de Rodrigo Constantino o que vai nos salvar (muito menos seja o que vier do « clã da família Bolsonaro »).

Falta-lhes noção histórica do que é « a questão brasileira ». Eles (Garschagen e Constantino) a entendem muito mal, embora o primeiro queira brincar de Winston Churchill e o segundo de Ron Paul ou até Paul Ryan.

A reação que Joel Pinheiro da Fonseca mostra nesse vídeo, sem incensá-lo, é exatamente aquilo de que precisamos. Mais gente que saiba pensar e cujos dois neurônios não funcionem na base de « amigos x inimigos », « globalistas x patriotas », « esquerda ou direita ».

Ronald Reagan já alertava para algo parecido em discurso de 1963. Não é o « fenômeno do trumpismo » a resposta a problema nenhum. É uma mudança brutal na cabeça oca desses libertários que nasceram ontem e nem sabem aonde vão, nem de onde vieram, pastiche que são de um próprio movimento que ele mesmo era de esquerda, o MPL, que inerme que fosse, pelo menos era mais honesto que esses simulacros que vieram a formar as hordas da « Novíssima Direita ».

*

Abaixo segue um artigo do Valor Econômico sobre a Cambridge Analytica. Vejam, Joel Pinheiro da Fonseca falha apenas em não enxergar (por ora) de onde vem o ataque que esses caras estão fazendo. Isso envolve questões como « big data », « manipulação mal-intencionada e de má-fé de redes sociais » — nas quais lacram e mitam o tempo todo — e « marketing de guerrilha » que é ele muito nocivo quando usado pelas mãos erradas de quem não sabe aonde quer chegar com o que propaga.

Infelizmente, a matéria original do Valor Econômico (“Após Trump e Brexit, Cambridge Analytica vai operar no Brasil“, 13/03/2017) é fechada para quem não assina o jornal.

Só que, por acaso, o leitor pode a ela ter acesso via os prints abaixo. Lembrando que isso não é « teoria da conspiração », nem sequer responde a tudo. Mas dá indícios do que anda acontecendo nas redes sociais mundo afora, isso sem contar « os recentes ataques via ransomware ».

O mundo virtual é cada vez mais perigoso. E talvez um dia os bravos guerreiros de hoje ficarão sem paciência e energia para seguir em frente combatendo o bom combate. Simples assim.

Ao artigo do Valor Econômico abaixo (para quem interessar possa):

Ler mais

Acerca das noções de virtual, virtualidade, possível e potência no latim de Tomás de Aquino

Campus Butantã - USP

(Catzo, quem vir o vídeo e/ou ouvir o áudio vai ver como sou ansioso, falo alto e sou meio desesperado-Belchior, uia!)

Às vezes fazemos algumas coisas sobre as quais não temos controle nenhum quanto a seus efeitos. Se eu posto uma conversa de 2013 — lá nos “jardins” abaixo do estacionamento do « Prédio de História da FFLCH » —, fazendo no Adobe Premiere Pro uma montagem #nascoxa, e publico no YouTube e no Facebook, logo vão achar que estou querendo “aparecer”. Não, meus caros. Eu só vou é “parecer” tolo mesmo. Mas há todo um modo de vida que revolve sobre a « tolice ». Um dia eu falo mais sobre isso e como « parecer tolo ao mundo » é uma estratégia, a qual, aliás, perde parte de sua eficácia quando a formulamos « em voz alta » ou « por escrito », afinal ações dizem mais que palavras.

A única razão pela qual estou postando esse áudio, um diálogo com o querido « Gustavo Barreto Vilhena de Paiva », quando ele ainda conversava comigo e tinha tempo — afinal, ele deve estar defendendo seu doutorado em alguns dias (se já não defendeu), sendo ele dois anos mais novo que este cá que escreve, e que não #chego (isso, não #chego) aos pés dos meus três maiores professores de filosofia:

« Daniel Nagase », « Paulo Ferreira » e « Gustavo Barreto ».

Foi com eles que travei os diálogos “filosofantes” mais difíceis de minha vida. Perdi todos e saí sempre feliz. Porque é só perdendo que se aprende. E é aquilo que perdemos, seja por qual motivo for, que nos dá aquilo que há de mais valoroso na vida, embora isso às vezes venha na morte, seja simbólica, seja a da própria carne.

Enfim, esse diálogo se travou por uma razão muito simples. Eu queria porque queria, em minha obsessão à época, juntar a noção de « virtual » ou « virtualidade » (latim « virtus » ou « vir ») às noções modais de « possível » e/ou « possibilidade » e de « poder », « potência » ou « potencialidade ». Tentei fazer isso num texto muito confuso, para variar — um dos dois que publiquei no blog da revista « Dicta sem Contradicta ». Sim, vou, espero, recuperar aquele post e a discussão que travei à época com « Daniel Nagase » na caixa de comentários, a qual fez todo mundo morrer de tédio.

Mas não é para os entediados e sonolentos que escrevo ou com quem falo. Se você está com soninho aí, ora, continue sonhando, eu já não estou mais aqui. #Fui

*

Adendo [17h50]: Já que tudo aqui neste espaço é feito #nascoxa #memo, aqui vai o adendo que publiquei no Facebook:

Agora eu quero ver a Patrícia Schlithler, minha outra professora, explicar-me o que diabos o verbo « poder » em grego ou a noção de

« potentia » (« dynamis ») tem a ver com

(1) « possível », « possibilidade »;
(2) e também « virtual », « virtude ».

Porque ter uma « virtude » é

« poder fazer ou realizar algo »

(donde « reificar », o verbo em português, ou « hipostasiar »),

ou seja, de um lado temos a

« res », do outro lado a

« hypóstasis »,

para não falar « daquele que deita » (“lies under”), o tal do

« hypokeimenon » (donde « subjectus », « subjacere » ?).

Esse é o lance. E não vale dizer que não sabe “filosofia”, estou recorrendo à “filologia” aqui.

Elogio à elegia nos 10 anos desde que Bruno Tolentino se foi

O nome de batismo do fulano aí em cima que canta “The Ballad of the Dying Man” é Joshua Michael Tillman, seu nome artístico é Father John Misty

Hoje, tanto Pedro Sette Câmara (“… virtuosismo sem força são os trinta modelos de cartas de apreço ao sr. diretor”), como Martim Vasques da Cunha (“… nas águas obscuras do desterro…”) remetem aos 10 anos da morte de Bruno Tolentino. E não há nada que eu queira dizer sobre a pessoa de nenhum deles, nem da do que partiu, nem da dos que falam sobre alguém por quem nutrem um carinho e uma admiração que julgo pessoalmente com um certo sentimento que não sei nomear. Ou talvez eu não tenha coragem de dizer que vejo consternado e empatizo com sua saudade e saudosismo.

A única razão que eu tenho para rasurar esta nota pessoal, remetendo ao que os dois acima escreveram, é que eu um dia fui apresentado a Bruno Tolentino, nos confins do CEUS (Centro de Extensão Universitária do Sumaré). Não tenho uma palavra sequer para dizer a respeito daquele ano em que entrei na filosofia da USP, 2006, e em que finalmente conheci pessoalmente Julio César Lemos (depois de lê-lo desde o Comentário Ultramontano, antes de ele começar a escrever junto aos Wunderblogs) e, por meio dele, uma das figuras que mais tocam meu imaginário agonístico: Joel Pinheiro da Fonseca. Sentamos a uma padaria, com JCL, que dizia ser JPF filho de um tal economista, enquanto este ia pegar o almoço e estávamos sentados os três à mesa (eu, DAN e JCL). Pensei comigo, “grande bosta!”. Nunca me interessou a filiação de um homem, ou sua linha genética ascensional, apenas suas ideias. E foi com ele discutindo (JPF), ao lado de Daniel Arvage Nagase — que conheci na USP, intrometendo-me em uma conversa sua com colegas calouros —, que tornei seu amigo. Bem, o que se discutiu naquela padaria do Sumaré não me lembro ao certo, e Tolentino deveria ser o assunto aqui. Mas, antes, só uma pequena observação: naquele mesmo dia Joel falou-me de seu Terra à Vista (Tavista), blog que escrevia com alguns amigos; e talvez eu tenha falado do Protosophos, sobre o qual em algum momento serei obrigado a escrever, para que o passado não seja esquecido.

“… como há dez anos atrás…”

De todo modo, voltando a Bruno Tolentino, minha única memória pessoal com ele consiste em a ele ter sido apresentado justamente por JCL. Àquela época, visto que meu irmão de sangue (mesmo pai e mãe e tal), o único, Gabriel Alexandre, tem cabelo “pixaim” (perdoem o termo, vestais!), e visto que sinceramente não me vejo como exatamente branco, visto que toda minha ascensão envolve negros, meu tataravô paterno sendo negro, minha tataravó materna sendo negra, eu disse então a Bruno Tolentino, que me perguntava quem eu era ou de onde vinha: “sou negão”. Ao que ele retrucou: “só se for [do norte da Inglaterra?]” (não me lembro da referência geográfica ao certo). Não sei exatamente por que conto isso; talvez seja porque eu me lembre de sua morte (velório na mesma igreja e no mesmo lapso temporal que Octávio Frias de Oliveira?) e de ter sido apresentado a ele por meio de JCL. Talvez seja por contrição pela maneira com que agi com alguns. Talvez tenha a ver com os “ataques pessoais” que fiz a um morto (atire a primeira pedra, caro leitor). Lembro-me também que num desses dias na mesma padaria perto do CEUS e do prédio da falecida MTV, MVC dissera ter vindo no ônibus conversando com Tolentino sobre como Marilena Chaui bem que podia morrer. Haveria, portanto, mortes abençoadas. A morte poderia ser uma bênção.

Pois, como se diz num livro aí, haverá um tempo em que os vivos não conseguirão nem sequer tirar a própria vida, logo a morte é uma dádiva divina.

Enfim, lembranças. Pois é, eu as tenho. Mesmo de alguém que conheci tão mal, e que, diga-se a verdade, nunca li nada seu. Ofende-me a ideia de ler Bruno Tolentino. Porque eu sei que não estou pronto. Talvez nunca esteja.

Por isso, o único objetivo deste encômio é remeter à elegia de dois monstros sagrados (MVC e PSC), que leio desde pirralho, o que quer dizer desde sempre.

*

Relembro também algo que o Julio dissera a respeito de Bruno. Como ele xingava a todos que com ele estavam no hospital, cuidando dele, por circunstâncias que não se revoca. Esse era um seu comportamento peculiar que com frequência a ele atribuíam. Brigava com todos. Pergunto-me, sincera e curiosamente, por quê. De onde vem esse espírito de Thánatos? Espero ciosamente que bem-aventurado seja e que o último inimigo a aniquilar seja a morte.

*

Se se menciona nomes de pessoas, quando se diz isso ou aquilo sobre o que aconteceu no passado, só se o faz enquanto memorabilia. Ninguém está sob ataque. Se se disser que se os acusa, só se o faz em sentido não jurídico de kategorein: não é denúncia perante tribunal, mas apenas epexegese. Esquecer é letal, por isso o dever do encômio apenas à alétheia.

O bando de bandidinhos intelectuais e seu Übereditor de livros: o caso da nova direita brasileira (da série Comédia Política)

Francisco Razzo, Imaginação Totalitária (Fundo)

A ideia de que se é odiado pela “pederastia intelectual” dos outros não só é de um vitimismo enorme mas também implica uma consequência colateral um tanto estranha para quem a enuncia: ei, você se lembra mesmo de o que é um pederasta? Você que se põe como vítima da pederastia intelectual coletiva sabe o que está dizendo? Ora, fera, você se acha mesmo uma vítima simbólica de um estupro intelectual coletivo? Não estará você imaginando coisas?

E aqui é chegado o momento de falar sobre a “imaginação totalitária” da nova direita: para eles, desde que são gente, eles foram e continuam sendo aviltados pela esquerda e pelo Estado. São notórios defensores da consciência individual, da liberdade de iniciativa pessoal e lutam contra o pensamento único coletivo. Só que em dado momento, visto que o capitalismo tem uma tendência perversa ao compadrio, tornaram-se eles mesmos vítimas do que acusavam: a partir do momento em que o “Übereditor”, Carlos Andreazza, resolveu que era preciso aproveitar o momento histórico e capitalizar e divulgar as ideias da nova direita, ilustrando a arraia-miúda que lhe compra os livros, então se formou um novo grupo de editados e autores que publicam títulos como a Imaginação Totalitária (Francisco Razzo) ou Pare de Acreditar no Governo (Bruno Garschagen).

Alguém poderia a mim perguntar se os li ou se os lerei. Não e não. Aprendi desde cedo que há prioridades bibliográficas e, sinceramente, nunca as satisfiz. Prefiro passar alguns meses lendo e relendo As Confissões de Agostinho traduzidas por Lorenzo Mammi do que chegar perto desses best-sellers preparados para agradar a “consciência coletiva do grupo” dos que defendem, só em aparência, a “consciência individual do indivíduo [sic]”. Porque é uma clique de adultescentes, que vive a queimar incenso um para o outro, às vezes com expressões como “gênio da raça”, “übereditor” (infelizmente em minúscula nesse caso particular, daquele que o propaga, embora o correto fosse “Über”, como em “Übermensch”, mas tudo bem, segue o jogo), entre outras diversas maneiras de elogio entre pares, num grande encômio público nas redes sociais.

De todo modo, tomando o primeiro caso, o de Francisco Razzo, há dois argumentos básicos  em sua auto-promoção e auto-divulgação militante contra o aborto. Antes, porém, um caveat, caro possível leitor: eu sou pessoalmente contra o aborto, quase que em qualquer situação. Entre a vida da mãe e a vida da criança que poderia vir a ser eu ficaria pessoalmente aterrorizado. Mesmo nesses casos em que há um impasse decisório, eu ainda tenderia a defender a tal vida “prenatal” (antes de nascer) — ou se quiserem dizer nascituro, digam.

Só que na prática a teoria é outra. Na verdade, o inverso aqui também é verdadeiro: na teoria a prática é outra. Mencionei há pouco, sem ainda explicitar, os dois argumentos dos que costumam defender o dito “direito à vida”. Esses dois argumentos se baseiam em dois pressupostos: (i) já o zigoto, como também o embrião, como também o feto já são (ou são em potência) “um bebê”, ou seja, são pessoas com direitos humanos que devem ser assegurados em lei; (ii) se o Estado permitir que a mãe “termine” a gravidez de maneira deliberada, o que está sendo permitido é que se assassine uma pessoa em potencial, o feto, que é o bebê em alguns meses. Há ainda os que usam um terceiro argumento, que geralmente é o primeiro na verdade, que de tão primário não valeria nem ser mencionado. E por que é primário? Porque se você precisa de um argumento para falar a respeito de um fato público e notório, você não sabe o que é um argumento. É óbvio que o feto é humano. A humanidade do feto é uma obviedade. O que isso tem a ver com o debate? A não ser que eu não tenha percebido que poderia haver aqui uma defesa dos “direitos humanos” do bebê que está por nascer em x meses ou dias. Agora, se for isso o que está pressuposto, os que defendem a vida realmente deveriam dar um passo atrás e defender a dignidade de toda célula humana que não seja um zigoto. Deveriam também fazer campanhas públicas pré-zigóticas em defesa dos direitos humanos dos milhões de espermatozóides que são lançados à terra (ou no látex) todos os minutos e segundos do dia ao redor do mundo. À campanha, amigos!

O problema é que ideias têm consequências. Se eu estiver fazendo um espantalho do argumento em prol da vida em (i) e (ii) basta me dizer, eu faço uma correção pública de meu erro. Mas até onde consta, todo defensor da vida, self-righteous, defende que o zigoto é um bebê humano em potencial (algo óbvio e com que concordo) e que, portanto, é já uma pessoa com plenos direitos humanos, ou, no mínimo, com o direito a nascer. Esse ponto (i) é um espantalho como o formulo? Não, não é. Se for, não adianta me bloquear nas redes sociais e continuar falando sozinho ou com os coleguinhas e amiguinhos; ou mesmo com a plateia e sua claque. Ah, como é bom ser aplaudido e vender minhas ideias sem contestação para os compadres em prol de uma causa justa, os bebezinhos ainda não nascidos! Como é bela a vida! Ao que digo que, ó Deus, um feto em estado embrionário não parece nada “humano”, embora o seja, e demasiado humano. Só que, infelizmente, muita coisa também é humana. Todas nossas células são humanas, inclusive aquelas cancerosas — e não, seu precipitado, não é uma comparação, nem uma equiparação axiológica. É óbvio que um feto humano, o nosso futuro bebê que se quer que nasça, tem uma diferença do ponto de vista do valor e do afeto que a ele lhe damos. Isso não está em disputa. Eu já disse que sou contra o aborto até em casos extremos. Mas é preciso analisar as ideias e suas consequências até o limite. E no caso, uma redução ao absurdo das teses defendidas pela direita religiosa militante, em favor da vida, faz com que se veja que do ponto de vista de políticas públicas, do ponto de vista das leis e das regras sociais, o aborto não pode ser proibido e sua proibição é uma violação essencial ao direito das mulheres de escolherem o que querem fazer com suas vidas e com seus corpos, assim como os homens têm os mesmos direitos, mas não do ponto de vista reprodutivo, no que toca especificamente ao carregar no ventre um bebê ainda não nascido. Sim, homens têm direitos. Mas ao contrário do que se vê em cena de Life of Brian, quando os militantes especulavam sobre quais direitos que queriam arrogar, um dos personagens, um rapaz, diz que queria ter o direito a carregar em seu útero um bebê. Mas lhe replicam: você não tem útero. Ora, treplica ele, mas eu quero ter direito a ter um útero!

Com essa anedota eu só quero frisar algo que é constantemente esquecido nesse debate todo: as feministas têm razão quando se arrogam direitos especiais, que não dizem respeito ao homem. Não, não vou eu aqui a defender todo o discurso e narrativa feministas, assumindo seus conceitos e expressões como sempre corretas. Se é para se falar a sério, é preciso discutir ponto a ponto, e em seu devido momento; a nova direita poderia querer dizer que defendo um discurso anti-falocêntrico. Bem, eu não acredito em falocentrismo, porque falos não são nem deveriam ser o centro de políticas sociais ou de uma ética pessoal. É estranho quando é preciso se defender o bom senso, mas vamos lá. Têm razão, porém, aquel@s que falam em patriarcalismo. O mundo social e as diversas sociedades — exceptuando-se pelo menos uma ou duas matriarcais — giram sim em torno da figura do tal do pater familias. Mas esse assunto não vem ao caso neste texto, a não ser para se esclarecer o máximo possível que, sim, mulheres têm direitos reprodutivos que são só delas e que nada dizem respeito ao homem, porque elas carregam em si todo um sistema reprodutivo, constituído de ovário, óvulos, útero. E, não, não quero especular por que mamíferos têm ovário e óvulos. Mas quero explicitar algo que é constituinte essencial e uma diferença específica da mulher que não, não é igual ao homem: não só faz parte de seu ser próprio ser dotada de um útero e de óvulos que seu próprio organismo individual e pessoal produz, sem os quais o espermatozóide não engendra um zigoto, mas a mulher também carrega em si algo que é próprio aos mamíferos femininos: mamas para o deleite, digo, para potencialmente amamentar. E, sim, esse texto se parece cada vez com uma primeira aula de Sex Education 101 ou mesmo de biologia, mas pouco importa. Se não explicitamos alguns detalhes óbvios, a direita vem com todo seu atualíssimo arsenal aristotélico — que, aliás, eu mesmo defendo e uso — e se utiliza do peripatético para seus fins propagandísticos e ideológicos que são eles mesmos de uma perversão (e não pederastia, Martim, sua vítima!) intelectual enorme.

Voltando ao ponto que acabo de elencar aqui. A potencialidade da amamentação é própria ao animal mamífero. E é própria apenas ao sexo feminino — não, aqui não se trata de uma questão identitária de gênero, mas de sexo, porque se fala de reprodução e mesmo de criação no sentido de suster um bebê que veio ao mundo. Tudo isso diz respeito tão-somente à mulher, em nosso mundo antropológico e sociológico patriarcal. E tudo isso é essencial ao ser da própria mulher, a potencialidade para a reprodução e seu aspecto passivo, no sentido de que é paciente ou recipiente do espermatozóide, dizem respeito somente à mulher. A partir do momento em que o homem dê sua contribuição, não há mais retorno. E ele só pode ser um mero auxiliar e paciente do espetáculo da vida que se dá no próprio corpo feminino. Só que se a mulher — e não vou discutir aqui motivos neste texto, apenas direitos — não quer continuar com a gravidez porque o corpo dela e o embrião e o feto e o bebê não nascido fazem parte do seu próprio ser biológico, é um seu direito natural fazer o que bem decidir, pois é dela, é uma sua dádiva.

Não se pode imputar criminalmente de maneira alguma a pecha de homicida em potencial à maior parte da humanidade. Mulheres não são assassinas em potencial. Se o aborto fosse o assassinato de uma pessoa, a consequência disso seria que elas deveriam ser presas, mesmo no caso de um aborto espontâneo. E se não foi o corpo da mulher que abortou o feto, se foi o próprio feto que, por qualquer motivo que seja, não deu prosseguimento ao seu próprio desenvolvimento e acabou morrendo, a consequência da ideia de que ele tem direitos de uma pessoa nascida é que ele cometeu suicídio e de que deveria ser legalmente processado num país em que o suicídio seja crime. Essas são as consequências de se atribuir um estatuto que fetos não têm: o de pessoa dotada de direitos, seja em potência ou não. Ou que os moralistas religiosos, mormente cristãos, que atacam as feministas (elas também frequentemente moralistas), que tomem responsabilidade pelas posições que defendem e que instaurem tribunais para punir a segunda metade da humanidade, que é potencialmente assassina.

Como é fácil zoar os outros pelas costas, tendo exercido o direito fundamental de bloquear (via aba privativa do browser)
Como é fácil zombar dos outros pelas costas, tendo exercido o direito fundamental de bloquear (Twitter via aba privativa do browser)

Quando eu disse tudo isso de maneira muito mais resumida no Twitter, Francisco Razzo não aguentou e me bloqueou. Fique claro: é um direito fundamental de qualquer um bloquear o pestinha ou o troll que se quiser.

Só que você não pode eticamente bloquear alguém, apagar alguns de seus comentários, e junto com Gabriel Ferreira da Silva — esse poser da “Ontologia”, “olha eu aqui lendo meu livrinho em sua realização ôntica em minhas mãos”, “olha como eu sou esperto, gentchim” — ficar dizendo que você já consertou a pingadeira do telhado, já lavou a louça e já salvou dez fetos não nascidos só nos últimos cinco minutos e o outro que está lá bloqueado e que não pode ver o que você está dizendo sobre ele tem sua reputação destruída. Ops! Reputação? Que reputação?

Aqui uma palavrinha sobre minha reputação: ela é uma das mais “libadas” e sujas da internet brasileira. Eu sei como sou percebido e sei que isso tem a ver com a maneira como ajo. Não é uma questão de paranoia. Se eu ajo como ajo, sei quais serão as consequências. Aponte o dedo para o que dizem, o que fazem ou como reagem as pessoas e será anátema. Fora daqui. Não falo mais com você. Só que cheguei à conclusão, graças a ajuda de Martim Vasques da Cunha, que me auxiliou nesse processo (via mensagem privada no Facebook direcionada a umas 12 pessoas) e aprendi finalmente uma coisinha ou outra com Nassim Nicholas Taleb. E uma delas é que quanto mais mal falarem de você, melhor. Quer dizer, desde que você defenda, no fim das contas, ideias que mereçam ser defendidas, não importa como o verão ou qual será a percepção pública sobre você.

Martim Vasques da Cunha se colocando como vítima do ódio alheio em sua luta contra a 'pederastia intelectual'
Martim Vasques da Cunha se colocando como vítima do ódio alheio em sua luta contra a “pederastia intelectual”

Em suma, não importa o quanto a “nova direita” me bloqueie e que quando me dê algum “IBOPE” o faça com minha caveira pública. Não adianta Francisco Razzo ou Bruno Garschagen me bloquearem. Não adianta Martim Vasques da Cunha, meu amigão sem ser meu amigo, incensar Carlos Andreazza chamando-o de “übereditor” (em minúscula, ai meu alemão) e escrever sem parar “pelo o” e “pela a” — um sinal de um certo analfabetismo “preposicional e articular” renitente —, não adianta ficarem falando que sou Napoleão, invejoso, ressentido, homem do subsolo de Dostoiévski. Eu não tenho o que invejar (invedere); eu os vejo muito bem, obrigado. E eu admiro o esforço que vocês fazem. E eu admiro a quase antifragilidade antivitimista de Martim Vasques da Cunha. Só que eu tenho de dizer que ele e a turma de O Indivíduo (lá no final dos anos 90 e início dos anos 2000) eram, foram e agiram frequentemente como um bando de vítimas da malvada esquerda brasileira, do PT, da PUC (ah, seus filhos!), dos letrados e dos bandidos, e por aí vai. Só que esse bando da direita veio a constituir hoje um bando de bandidinhos intelectuais que ficam acusando o ódio de quem não os odeia e a pederastia intelectual de quem não os está violando, a não ser em sua “imaginação totalitária”, advinda de pensamento único e de comportamento de rebanho. São o homem-massa da direita, para o aggiornamento do pobre José Ortega y Gasset.